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"Picha torta" entre as mulheres

por Cláudia Matos Silva, em 30.09.16

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O bate na avó, caixa d'óculos, baleia fora d'água ou bate-m'uma, são apenas algumas alcunhas de mau gosto, alcançando o título de intemporalidade, porque em qualquer grupo existem personagens em que assentam tais caracteristicas. No grupo que a contragosto me ia acolhendo, conforme humores, estado do tempo e outros critérios altamente parciais, existia também um outro renegado, o picha torta.  Há tantas memórias do menino mais bonito da rua, quem sabe do bairro, traído em tão tenra idade por uma graça que o levaria, à desgraça. O mito sobrepôs-se a um simples homem. Afinal, como se chama o picha torta?
 
As circunstâncias deste miúdo não lhe seriam favoráveis e nem mesmo o seu palmo de cara o faria vingar, especialmente na presença de Xavier, o líder da matilha, a quem todos os miúdos prestavam obediência cega e por quem inevitavelmente as raparigas se apaixonavam. Não havia volta a dar, as coisas aconteciam assim e ponto final. 
 
Picha torta, perdido de amores por Ana, morena trigueira e buço considerável, ansioso pela atenção da sua querida,  na verdade enleada na teia de Xavier, terá  apelado ao mais trivial exibicionismo. Subiu numa mesa de madeira nas traseiras dos prédios e inesperadadamente baixou as calças para logo as subir. Orgulhoso pelo atrevimento, realmente captou a atenção de Ana que gritou "ele tem a picha torta". Ninguém confirmou ter visto a picha, do picha torta, por isso é desde essa altura no meu universo de pré adolescente, um mito-suburbano. Mas o picha torta tem nome, não tem?
 
Menino especial, havia uma aura de secretismo em torno da sua família, a lembrar pactos dos clãs italianos. Mesmo assim, tentava na medida do possível ser um rapaz entre rapazes, mas nem sempre conseguia. Não estudava nas mesmas escolas públicas que os miúdos do bairro e certamente não vestia as mesmas roupas ordinárias. Entre mulheres, nunca lhe conhecemos um homem no lar, a mãe e as irmãs eram o núcleo duro e não havia qualquer melindre nesse facto, mesmo retratando o conservadorismo do final dos anos 80 e inicio dos anos 90. Bonito, estupidamente bonito, nunca foi visto como tal, nem mesmo pelas raparigas. Brincavamos na rua, e o picha torta não se atrapalhava, se os rapazes lhe viravam costas, as meninas haviam de o acolher.  Ele terá conhecido o melhor e o pior de todos nós. Se tantas vezes nos limpou as lágrimas em amores não correspondidos, outras vezes comportava-se como o típico rapaz e sob a influência de Xavier, tornava-se um militante empenhado daquela matilha de machistas em potência. 
 
O Xavier, Nuno, vivia no meu prédio, terceiro piso e creio, aquela casa ficará para sempre marcada com a energia daquela família, também ela incomum, onde viviam apenas homens. Confiante, carregado de preconceitos até à raiz dos cabelos, arrogante, expressava alguma violência num discurso por vezes recheado de pura basófia. Ouvia metal pesado, usava calças de ganga justas e falava de estranhos rituais no meio do mato, violentação de pessoas e animais. Quem sabe histórias para impressionar. Um dia escreveu-me no canto de um caderno da escola, dobrando cuidadosamente a mensagem como se fossem palavras de amor. Fiquei encantada com a sua linda e repenicada caligrafia, só depois me detive no verdadeiro sentido do que havia escrito "hás-de morrer careca". O Nuno era mau, assustava as pessoas com estes e outros comentários mas ao fim das contas, todas as miúdas se apaixonavam por ele e eu não fui excepção.  Recordo a sua profetização junto à porta da minha casa "quando cresceres vais ser um borracho". 
 
Estaria longe de imaginar que Xavier, inversamente a mim, iria transformar-se num trambolho, gordíssimo, a rebentar pelas costuras. Casado com Esmeralda, apresenta "shows" noveleiros para vizinhos em acesas discussões e o recurso ao pugilato. São lindos os filhos, instalam-se largamente no carro familar, e ele aproveita o fim de semana para deixar o fato e a gravata de misero comercial e usa bermudas caqui e sapatos de vela, sem meias.  Quem sabe a vida tenha ensaboado a psique de Xavier com uma generosa dose de humildade. Ele já não é o gajo mais "fixe" da rua, nem sequer faz girar cabeças. Será que Esmeralda ainda não o trocou pelo pintarolas do snackbar?
 
Aquele puto, o picha torta, corria tantas vezes atrás do seu líder é hoje o homem que eu prevera, sem tirar nem pôr. O mesmo rosto imaculado, olhos safira, cabelo acobreado, corpo esguio, desloca-se elegante e fala tranquila. No mesmo circulo femínino, entre mulheres e um ambiente de doce familiariedade surge um menino, sorriu-lhe muito, talvez se tivesse lembrado de si próprio. São os únicos homens do clã, a criança, talvez sobrinho, salta para os braços do picha torta e eu aprecio o episódio, apanhada pela surpresa de mesmo ao longe reconhecê-lo. Não consigo desviar os olhos,  mas o meu estúpido sorriso camufla uma inquietação, a questão que paira na minha cabeça. O nome, picha torta, porque raio não sou capaz de me lembrar do teu nome!?

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publicado às 00:36

Editores de imagem on line: Pixrl vs Fotojet

por Cláudia Matos Silva, em 30.09.16

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 Fotojet é um editor de imagem on line. Descobri-o recentemente quando procurava uma solução habilidosa para construir um cartaz apelativo. Até ao momento o Pixrl havia sido o meu editor on line por excelência. Depois de testar as mais valias de um e outro, dependendo o objectivo faço a minha opção. É um facto que o Fotojet está claramente a ganhar pontos na abordagem a templates para as redes sociais apresentando extruturas diversas para um resultado quase profissional. O Pixrl tem filtros para todos os gostos e feitios, efeitos de luz e imagem, molduras e 'lettering' criativos mas o fotojet também tem isso tudo. A escolha é cada vez mais renhida. Por agora não vem mal ao mundo usar as duas e usufruir do que cada uma tem de melhor.

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publicado às 00:04

Encontrei um rei

por Cláudia Matos Silva, em 08.09.16

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Desde a série 'O Sexo e a Cidade' e o episódio em que Burger revela o hábito de guardar todas as cartas soltas que vai encontrado espalhadas em NY, reconheci uma espécie de colecionadores nunca antes vista. O personagem, aos primeiros episódios gera simpatias, em pouco tempo percebemos estar diante de um homem que não joga com o baralho todo. Poderá esse facto justificar uma busca inusitada pelas cartas deixadas em bancos de jardim, passeios ou canteiros? A moda tomou conta das redes sociais mesmo que num núcleo restrito, nunca acreditei na veracidade dos posts. Ao que parece há gente a espalhar baralhos ao vento, considerando o número de pessoas que casualmente as encontram. Isto mudou no dia que encontrei na praia fluvial de Serpins, algures no piso revolto do parque de estacionamento, a minha primeira ( e até ao momento única) carta. Parecia estar mesmo à minha espera, já muito pisada e moída pelos grãos de areia, um rei. Podia ser outra carta qualquer mas o que me estimulou neste encontro casual foi a importância da carta, um rei, e o impacto que esse achado teria na minha predisposição para acreditar. Dizem-me que é apenas uma carta perdida junto a um parque de campismo mas eu acredito que o rei estava à espera de mim, para lhe tirar a poeira, estimar e guardar junto de outros amuletos da sorte. Junto-o ao Expedito, o rei encontrou um trono improvisado na minha secretária. Ombreando, lado a lado o santo e o rei olham por mim, sem que nenhum queira sobrepôr influências. 

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publicado às 22:05

A amizade não é nenhum truque de ilusionismo

por Cláudia Matos Silva, em 03.09.16

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 E., amiga de longa data, o mais próximo que me ficou na categoria 'amigos de infância'. Já conheci E. mulher feita mas como levei muitos anos a crescer, julgo que o preço a pagar pela falta de maturidade terá resultado no desaparecimento de amigos e conhecidos, num passado dolorosamente presente. Como se o meu mau feitio tivesse o poder de subtrair seres humanos, e uma diferença fundamental, nos truques de magia a pessoa desaparecida reaparece no fim para um encerramento triunfal. Das minhas manobras apenas E. resistiu, e embora a própria tenha um feitio desafiante, noto que guarda a nossa amizade com a mesma dedicação e retidão como respira. Falamos muito sobre desenvolvimento pessoal e atribuimos uma a outra tantas qualidades que às vezes não reconhecemos quando nos vemos ao espelho. O reflexo nem sempre é lisonjeiro, buscamos a perfeição, detestamos o erro mas sabemos, é à custa de algumas falhas que temos construido a solidez  numa amizade muitas vezes à distância.

 

Quero-te na minha vida E. Por favor não desapareças, como por artes mágicas, porque no fim do acto não tenho o poder de te fazer regressar a palco. Que triste seria um número assim. 

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publicado às 00:26

Tem calma contigo, pá!

por Cláudia Matos Silva, em 02.09.16

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Bem sei, testo os nervos do meu homem, diariamente. Ele resiste e com uma nota exemplar vai passando cada uma das provações. Nunca sabe ao certo que mulher dorme com ele na cama, ou quem vai encontrar quando chega a casa e mesmo assim acolhe-me sorridente e de lábios cálidos, tranquiliza-me. Às vezes debate-se, sozinho, o que mais pode fazer para me ajudar?! A maior parte das vezes sente que falha redondamente, eu choro sem que encontre explicação plausível para tal pranto, mas é quando ele me faz rir e rebolar à gargalhar ou mesmo sorver o sal das próprias lágrimas, muco e ranho, que sei ter descoberto a tampa para o meu tacho. Depois dos momentos de doçura noto o horizonte alarga-se, há tampas e os tachos acumulados, gordurentos, esperando que arregasse as mangas e lhes dê o devido andamento. Oiço um estrondo bruto, replica-se durante alguns segundos, corro sobressaltada e vejo-o a segurar a máquina de lavar roupa que ganhando vida própria dá dois pulinhos no ar. 'Tem calma contigo, pá' grita-lhe segurando-a pelas extremidades como quem detém um toiro enfurecido. Não consigo conter a gargalhada histéria, descontrolada. Como se um mal não bastasse, tem duas situações em mãos, máquina vs mulher, ambas à beira de um ataque de nervos. 'Tem calma contigo, pá', repete. Não é fácil a vida deste homem, não é, não.

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publicado às 14:54


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