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E se fazer sorrir for tão simplesmente o propósito

por Cláudia Matos Silva, em 15.02.16

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Quer dizer, é assunto que me aborrece até à ponta dos cabelos, revelá-lo aos outros melindra-me, sinto-me até fútil.

Qual o propósito da vida? Poucos se questionam sobre essas duas inevitabilidades; a vida e a morte. Querem é saber do campeonato de futebol e descida do Benfica ou quantos feriados temos este ano, de resto, falar-lhes de questões existenciais, embaraça-me.Das reacções retiro duas; a grande maioria olha-me incrédula, como se eu fosse um mágico que saca um coelho da cartola, ora em vez do coelho eu retiro questões das que não lembram nem ao diabo. Há no entanto um pequeno núcleo que escuta e mesmo em silêncio vai buscando respostas às suas próprias inquietações. É com essas pessoas, as que na espuma dos dias se tentam conhecer e melhorar como seres humanos a quem presto a minha disponibilidade, o meu tempo, o meu sorriso, o meu brilho.

É-me difícil esconder algum desencanto pelas coisas em geral, mas sei, a minha vida não precisa de fogo-de-artifício para se completar como um circulo perfeito. Preciso apenas de um propósito, não quero ser super heroína, ou salvar o mundo inteiro. Basta salvar-me a mim própria, superar dos dissabores inerentes à própria existência, aprender com eles e caminhar desempoeirada por uma estrada que se fará do inesperado. Sei, por mais que me prepare, nunca estarei suficientemente pronta para lidar com os desafios.

É quando falho que surge a desesperança, em mim, sobretudo em mim. E se falhar também faz parte do caminho, sigo cabisbaixa e com vergonha incapaz de me encarar, um vislumbre ao espelho deixa-me as faces rosadas para logo empalidecerem, febris. Instala-se a desesperança, e inesperadamente faço alguém sorrir, uma curva que se abre entre os lábios, desenha-se como um cartoon que ganha vida e nos salta para o colo para nos fazer cócegas, e também eu sorrio. A minha palidez esvai-se por instante, e há novamente o brilho no meu olhar, continuo sem saber o que raio ando para aqui a fazer, mas hoje fiz alguém sorrir. Já valeu a pena.

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publicado às 20:40

Carnaval é todos os dias

por Cláudia Matos Silva, em 09.02.16

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Carnaval, um dia como qualquer outro, mas nem sempre foi assim.

Passa da meia noite, conduzo por uma zona escura de Almada, contorno algumas rotundas e sem pré aviso uma estranha visão. Um pequeno grupo de pessoas, perfeitamente alinhados e imóveis, vestindo negro na já muito escura noite de Fevereiro, exibem apenas uma máscara branca, 'anonymous'. Sobe-me pela espinha um arrepio e embora me recorde que afinal não passa de uma brincadeira, porque é carnaval e ninguém leva a mal, eu lembro outros tempos, e a minha eterna falta de tolerância para brincadeiras de mau gosto.

Não direi que o carnaval era melhor, porque não gosto deste período festivo com ou sem brincadeiras, mas há uma certa melancolia na coragem que implicavam algumas peripécias. Muito antes dos balões de água, tendência que de alguma forma dita um fim das velhas e bravas tradições do carnaval português, havia farinha, ovos e bisnagas de água. Já as bombas de mau cheiro considero-as cobardes, quase tão cobardes como as máscaras dos 'anonymous', porque no fundo, hoje todos se escondem, seja numa máscara, num ecrã ou num teclado. São mais as vozes que as nozes e na hora de se arregaçar as mangas para um trabalho construtivo, todos cobrem as partes intimas com as mãos, exasperados, como se lhes tivessem roubado a toalha ao sair do banho. Já não se podem fiar no imaginário, sabem que para além de o orçamento escassear para a farinha e os ovos, também a uva foi inflaccionada e já nem a parra nos sobeja.  

E se nos tempos do ensino preparatório/secundário aproveitava para 'zerar' todas as minhas falta da caderneta verde porque tinha francamente medo de andar na rua e levar com um ovo, não só essa memória mas como os palermas dessas brincadeiras de mau gosto, merecem-me algum respeito e consideração. Era necessária coragem para se abordar uma pessoa, chegar-se perto e esfregar-lhe um ovo na tola. Tantas vezes traídos pelos nossos que de mansinho nos deixavam a cara enfarinhada. Às vezes lá se via uma vítima, mais uma, pôr a chave à porta de casa com os ombros descaídos e o casaco de camurça manchado. Realmente ninguém levava a mal, embora eu evitasse sair de casa durante essa altura, na minha cabeça todos os medos tiniam e aos meus olhos vivia-se uma espécie de terceira guerra mundial na mais fina 'patisserie' nacional entre água, farinha, ovos - quantos bolos poderíamos ter feito?! 

O que eu tinha como certo é que tudo terminaria, incluindo a folia desproporcionada com mulheres branquelas e com o rabo flácido em corsos de carnaval tentando sambar à luz de uma tradição que nem sequer é nossa, entoavam músicas como 'mamã eu quero' ou cachaça não é água não'. Hoje inquieta-me o facto de não saber muito bem quando começa e termina o carnaval. Sinto-me constantemente alerta, porque noutros tempos o meu 'inimigo' fazia questão de se apresentar para que a ele fosse atribuído o mérito da maldade, mas agora, são todos 'anonymous', o ano inteiro. Não sabemos quem são porque não têm rosto, mas existem, e mesmo silenciados sabemos que irão manifestar-se, mas ninguém sabe ao certo, quando. Há quem os chame de 'haters', nome que até lhes confere uma certa pinta, eu prefiro um termo bem português, cobardolas. À sombra das redes sociais fazem trinta por uma linha: aterrorizam, chantageiam, ameaçam. Para todos os anónimos, o carnaval faz-se 365 dias por ano, mais coisa, menos coisa. 

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publicado às 05:51

Paul Auster 'Palácio da Lua'

por Cláudia Matos Silva, em 04.02.16

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'...tinha perdido a capacidade de pensar em termos de futuro, e por muito que me esforçasse para tentar imaginar o amanhã não conseguia ver nada de nada. O único futuro que alguma vez me tinha pertencido era o presente em que vivia agora, e o meu combate para permanecer nesse presente acabara por esmagar tudo mais. Eu já não tinha ideias. Os instantes desenrolavam-se um após o outro, e a cada instante o futuro surgia diante dos meus olhos como um vazio, como uma página branca de incerteza.

(Palácio da Lua - Paul Auster)

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publicado às 07:33


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