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Ambivalências

por Cláudia Matos Silva, em 06.02.14

publicado às 09:13

#Citações:Anne Morrow Lindberg

por Cláudia Matos Silva, em 05.02.14

"Como odiamos pensar que estamos sós. Como nos esforçamos para evitar isso. A solidão parece implicar rejeição e impopularidade. A palavra continua a encerrar em si um pânico de bailarina sem par. Tememos que nos deixem assim abandonadas, sentadas numa cadeira, sozinhas, enquanto as jovens populares foram já eleitas e vão rodopiando pela pista de dança com os seus parceiros. Hoje em dia, parece haver tanto medo da solidão, que evitamos sempre essa situação... Agora em vez de semearmos a solidão com os rebentos dos nossos próprios sonhos, entupimos esse espaço com música, ruído e companhia constantes, aos quais nem sequer prestamos atenção. Estão lá simplesmente para encher o vácuo. Quando cessa o ruído, não há música interior que tome o seu lugar. Temos de reaprender a estar sozinhas."

 

Anne Morrow Lindberg «Dádivas do Mar»

publicado às 16:15

A gente habitua-se a tudo

por Cláudia Matos Silva, em 05.02.14

 

Há os que não arranjam nada melhor para fazer pela manhã a não ser massacrar quem gosta de dormir, o dia começa nas primeiras horas, dizem vibrantes forçando o mundo inteiro a concordar com eles. Imagem recorrente a instalar-se no consciente, quando os seres matutinos começam a papaguear este discurso, recordo o jogo da mala. Lembro o Sala numa entrevista sobre as maravilhas de levantar cedo e cedo erguer e inevitáveis birras do sono pelas 9.30 da noite. E faço um esboço mental da loira, posteriormente terá ficado conhecida como "a senhora da chave", Olga Cardoso, descendo em roupão até aos estúdios para assegurar as manhãs desde o Porto, em parceria com o António que estaria em Lisboa.

 

Diria a personagem de Rita Branco no filme "Sangue do meu sangue" realizador João Canijo, num tom esmorecido "uma pessoa habitua-se a tudo" e nunca me esqueço dessa frase, como se a vida fosse feita para isso mesmo, sofrer, portanto há que aguentar e nós havemos de nos habituar. As manhãs poderão ser uma absoluta tortura para mentes criativas, esses loucos cheios de interioridade intelectual e com uma certa dificuldade em comunicar com o mundo. Perdão, estou a falar de quem? De mim, em primeiro lugar e depois de uma série de outras pessoas que não consegue tranquilizar o espírito antes das 5 da matina.

 

É errado generalizar, mas pela minha experiência e e se tivesse de fazer um estúdo, diria dos matutinos seres definitivamente  mais equilibrados, bem dispostos, trabalhadores e com maior espírito de sacrifício. Só a ideia de acordar cedo deixa-me intranquila, e os argumentos surgem em catadupa para que tal não aconteça; são os transportes, o alerta amarelo, cor de laranja,  faringite, laringite ou demência matinal incontrolada. Nervosa, eu, como qualquer um destes animais nocturnos respondo "não, não, não não....dá", à eventual proposto de arrancar às 7 da manhã para um dia laboral.

 

Nós os bichos da noite, talvez um dia consigamos chegar à conclusão que tudo isto não passa de um capricho e ao negar sair cedo da cama, recusamos deliberdamente qualidade de tempo com os que amamos e de vida. E um dia quando a questão matinal não for uma opção mas uma imposição, a auto-disciplina será a melhor de todas as resposta para a estabilidade que há muito procurávamos em longas noites solitárias, quer dizer não são bem noites solitárias, pairam sempre esses "fantasminhas" ou "fantasmões" que cada um vai combatendo à sua maneira ou há mesmo quem os convide a passar a noite enroscados numa manta, não vá o diabo tecê-las.

 

A Rita sempre tem razão "uma pessoa habitua-se a tudo" mas isso não tem de ser mau, porque de noite há todo um plano de mistério, mas quando o dia ainda não nasceu e as luzes da cidade começam a acender timidamente, é um cenário avassalador para os nossos sentidos. No café cheira a panike quente, o queijo derrete e o senhor António já sabe que às 6.30 da matina vocês entram ramelosos e vai saudar-vos com o radioso e desarmante  "bom dia". É impossível não retrubuir na mesma moeda.

 

A noite pode ser minha amiga, mas com a idade reparo que é feita cada vez mais para me acolher bem e me adormecer. Não é a tal conselheira de que se fala, deitar a cabeça na almofada, fitar o tecto no escuro e esperar que os medos me invadam, até que o silêncio me iniba de respirar fundo. Hoje, eu acordo às 4.30 da manhã, estou tão profundamente cansada à noite e não há papão que me aconchegue os lençóis, me amedronte, pois durmo ferrada e se assim não for, ao estilo do tio Sala, a rabugice do sono fará das suas e tende a não ser bonito de se ver.

publicado às 09:10

Há um kitler que me saúda

por Cláudia Matos Silva, em 04.02.14

 

T. enrolou-se na manta que a agasalha para onde quer que vá, com mão assinalou a distância à minha pessoa "detesto que falem do Hitler, toda e qualquer piada sobre esse homem é de muito mau tom", e eu guardei aquela informação que se discute há muito, afinal Hitler só tinha um testículo. T. também não iria gostar de saber que há um fenómeno a que chamam de Kitler, gatos com feições do ditador alemão, porque diga-se em abono da verdade, há um fascita (de trazer por casa) em cada felino, afirmo-o com toda a propriedade, mas não a T. que continua enrolada na sua manta teclando freneticamente, ao mesmo tempo acende um cigarro, bebe um gole de chá e atente o telefone, sempre com as pequenas mãos palpitantes.


T. é neurótica mas a minha confidente, a ela, só a ela tenho um especial prazer de partilhar pormenores desnecessários, às vezes a roçar o grosseiro, talvez porque no fundo sinta que apesar de criticar, T. gosta da forma despudorada como vejo o mundo. Ligo o computador e sinto a necessidade violenta de partilhar o que realmente pontuou o meu dia com um raio de sol. Um dia de Inverno cavernoso como tantos outros, os meus queixumes costumeiros que me irritam de morte, ao volante do carro embirro com a playlist que toca no rádio e à janela de um primeiro andar um gato branco, sombra negra como o carvão na testa e pintalgado a preto o beiço superior com uma pequena tira que lembra, um bigode. Sei que os meus olhos brilham naquele momento, ali está acenando-me com a patinha que bate de encontro à vidraça um Kitler e dos verdadeiros. 

 

Já em direcção a casa, aguardam-me outros dois ditadores, facções esquerdistas, pequeno Leline e Staline. Ao que parece estou rodeada de gente sensível, T. não suporta Hitler e o meu pai que educou estes felinos como se fossem pessoas com poder de voto, abonina tudo com cheiro a capitalismo. Cá em casa os felpudos mandam e não há mais conversa, na rua um outro desconhecido lembra-me que estou irremediavelmente rendida à bicharada e que por mais voltas que dê, eles levarão sempre o melhor patê aos seus sensíveis bigoditos.

 

Heil, saudou ao longe a bela criatura. Até amanhã, espero encontrar-te, retribuo.

publicado às 22:10

A ansiedade é o flagelo do novo século

por Cláudia Matos Silva, em 03.02.14

publicado às 08:48

#Citações: Clarice Lispector

por Cláudia Matos Silva, em 02.02.14




"-Ela é tão livre que um dia será presa. 

- Presa porquê?

- Por excesso de liberdade. 

- Mas essa liberdade é inocente? 

- É. Até mesmo ingénua. 

- Então porquê a prisão? 

- Porque a liberdade ofende."

 

Clarice Lispector

publicado às 16:02

Eu não gosto de crianças...

por Cláudia Matos Silva, em 01.02.14
disse Robin num dos episódios em "How I Met Your Mother" e percebendo a gravidade da afirmação numa sociedade que aparentemente (entendam o que quiserem com este aparentemente) veneram a criança elevando-a ao estatuto de ser superior, tentou corrigir "well...". Tirando o facto de Robin ser "dog person" e eu "catperson", temos muito em comum, incluindo a relação com as crianças a quem tantas vezes chamo de criancinhas em tom depreciativo. Já é uma frase batida, já outras pessoas disseram, mas eu nem sequer gostava quando era criança, vivia na premente ansiedade de crescer. Inconscientemente perguntava-me, quando é que tudo isto acaba, os açoites da mãe, as reguadas do professor, os toscos dos colegas e a porcaria daquela casa em Santa Catarina onde chovia e ao que parece ratazanas gordas rastejavam pelo rodapé. O meu pai, nunca foi herói de capa e espada, antes de vassoura na mão esmagava-as e cheio de ira chamava-lhes nomes. Não sei se esta e outras histórias não terão sido determinantes na hora de rumar ao telhado da casa para apanhar manjericos. Não, não há manjericos nos telhados de Lisboa, quanto muito farfalhos verdes, ervas perdidas e telhas partidas, mas eu queria ter o meu próprio manjerico e acima de tudo sentir o cheiro da liberdade vislumbrando a cidade das alturas e esquecer a minha enervante situação de criancinha. O plano foi abortado, a minha mãe apanhou-me, levei uma valente carga de porrada (eu sou do tempo em que se levava porrada de criar bicho e isso só servia para fazer de nós pessoas rijas e não traumatizadas) e na minha imaginação tão fértil ninguém podia reverter o facto de eu ser uma mulher crescida livre e independente. Do alguidar fazia um volante de um carro, das molas um cigarro e um isqueiro, das saias com elástico uns cabelos compridos e assim se projectava o que para mim significava deixar de ser criança. Em minha defesa, deixem-me dizer, em adulta nunca quis fumar porque me parece pobreza de espírito. 

Hoje, um pouco como a Robin, levada pelo instinto sai-me disparada "eu não gosto de crianças", depois tento compôr "mas...." e o "mas" interessante é que já quase não preciso defender-me porque ao meu lado está sempre alguém que me aponta o dedo antes que diga de minha total justiça; "eu bem vi a maneira como olhaste para aquele bebe" ou "lembraste quando ameaçaste sair do cinema a meio caso o miúdo no filme se atrevesse a cair da varanda e estatelar-se em cacos no chão?", já de mãos atadas levo a última chibatada "e a maneira como olhas para a roupa das crianças, especialmente os vestidos". E tudo na minha cabeça ganha sentido, as crianças não têm culpa alguma da forma como são veneradas, talvez isso me chateie, o comportamento dos grandes e não dos pequenos. E explica também porque é que as crianças tendem a gostar de mim, trato-as como seres humanos normais. Para muitos dos seus pais, porque os tempos eram outros serão brinquedos dos que nunca tiveram em infância, agora com todos os acessórios. Será que estão preparados para quando o bebé crescer e começar pensar por si próprio e quiser deixar a casinha de bonecas construida ao estilo Mattel?

publicado às 08:36

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