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Um homem a quem possa roubar as meias

por Cláudia Matos Silva, em 24.03.15

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Sabia, desde miúda, querer viver sozinha. Influenciada pelo facto de ser filha única ou por assistir a um ambiente familiar hóstil, teria presente a tomada de decisão, viver só. Gosto do meu espaço, geralmente uma extenção do meu carácter. E se nem todos gostam de mim, é certo que muitos irão questionar uma convivência diária com a rapariga que vai ao café em pijama. Não sou má diaba, mas tenho os meus caprichos e não admito que por eles me apontem  o dedo.Gosto de deitar-me a horas estranhas, acordar quando ninguém está à espera e executar tarefas (às vezes barulhentas) quando o mundo inteiro dorme. 

 

Continuo a acreditar que viver sozinha é o melhor do mundo, mas no fundo sou uma desertora. Quando era solteira, só me faltava subir num palanque para defender esta minha posição, bem sei que a questão em si não é tão fracturante quanto os cofres portugueses (afinal estão cheios ou vazios?) mas podem salvar-se muitos relacionamentos. 

 

Há no entanto um facto que não posso negar, viver junto, no meu caso particular, não foi uma decisão mas inevitabilidade. Já não fazia sentido andar com cuecas do dia anterior dentro da mala ou dormir tarde e a más horas para desfrutar do tempo possível ao lado do meu parceiro. Vivíamos ambos numa ansiedade, desgastados com o facto de nos dividirmos entre duas casas.

 

Quando nos juntámos, não houve a cerimónia dos primeiros tempos. A partilha de tecto era tão natural que sabiamos não haver motivos para discutir sobre loiça por lavar ou pêlos da barba no lavatório. Haviamos esclarecido uma série de mandamentos para quem quer viver a dois e em tranquilidade. Às vezes as pilhas de loiça superam uma obra da Joana Vasconcelos, a maior parte das vezes não vejo propósito em cozinhar, e alturas há que o frigorifico vazio chora de solidão. Depois há os meus caprichos, gosto de roubar meias ao meu rapaz, embora não as dobre, muito menos pretenda cosê-las, mas uso-as por casa. Secretamente gosta, eu sei, porque os meus pés lembram os de um E.T. disforme, e ri em silêncio. Tal como aprecio que me subtraia relógios ou gorros. Partilhamos, sem reticências, e quando é chegado esse momento, julgo que não poderíamos estar mais prontos para deixar fruir a natureza que nos quer debaixo do mesmo tecto, mesmo que ambos por natureza tenhamos uma paixão pela mistica de abrir a porta de casa e saber que tudo estará exactamente como deixámos. 

 

A minha mãe sempre disse 'a quem doi o dente é que vai ao dentista' e se algo incomodar, o incomodado que faça por mudar a situação. Diz o bom senso, uma mão lava a outra, se ele hoje lavou a loiça, decerteza que vai gostar de chegar à noite a casa e ter a caminha feita de lavado e com os lençóis favoritos. Não falo de troca, toma lá dá cá, mas de boa vontade e sabemos desde as cadeiras da escola primária, boa vontade gera boa vontade. 

 

E eu no fundo desconfio que sempre quis um homem a quem pudesse roubar as meias, numa casa onde cresci aprisionada, o reino da austeridade. É, no mínimo, libertador usar as meias do meu homem sem que venha abaixo o carmo e a trindade. 

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publicado às 16:57



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