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'Tava um chinês a assar sardinhas...

por Cláudia Matos Silva, em 14.06.15

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Podia ser um mote para uma cançoneta de Amália ao estilo 'Ó Senhor Extraterrestre', mas por esta altura nem o Carlos Paião andava por Lisboa, e nem a sua imaginação seria assim tão prodigiosa. Havia mesmo um chinês, junto ao seu estabelecimento comercial, que entre o colorido dos Santos Populares se misturava com as barraquinhas das bifanas. Tudo a preceito: assadouro, as brasas no ponto, a sadinha na grelha,  e de leque em riste o chinês, pequenito mas desenrascado, conferia àquela tradição tão portuguesa um toque de multiculturalidade a que Lisboa não pode nem quer fugir.

 

Se fugir é o meu nome do meio, foi nesse ano em que 'tava um chinês a assar sardinhas, decidi deixar de frequentar os bairros populares da capital em dia de ramboia. A sangria meio augada compensa o facto de encontrar das melhores bifanas, marinadas com um molho gorduroso com muitas horas de apuro, que mais depressa a ASAE apreendia o suco das bifanas do que o senhor chinês desvirtuando a base da sua própria cozinha, assava sardinhas com asseio e arte.

 

Nos santos há bailaricos, os bairros estão enfeitados, um verso em cada esquina aromatizado com o viçoso mangerico. E tudo isto é o nosso Fado, a alma portuguesa, assimilada por todos quantos nos visitam. É bela a poesia que surge destes momentos inspiracionais mas na realidade eu não consigo ser feliz se não respirar e na noite dos santos, Lisboa é impraticável. Gosto de palmilhar os pateos, lugarejos, becos sem saída, a arte urbana que toma conta dos nossos muros, os castiços e os pregões. Sobra-me o resto do ano para disfrutar da cidade eternamente catraia.

 

Na noite dos santos, lembrei do meu ninho o dia em que pela última vez celebrei em comunhão a festa e vi que 'tava um chinês a assar sardinhas; sórdido e belo, simultaneamente. E todos os anos, do meu ninho, no conforto do pão com manteiga, um desconhecido toma conta da minha memória e ele nem faz ideia que dos santos populares de Lisboa o guardo como uma relíquia. Nunca irei esquecer, o instante exacto em que no Campo das Cebolas 'tava um chinês a assar sardinhas e eu rumando a sul, desconfiava, que tão depressa não voltaria a fazer parte daquela festa. Até um dia... 

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publicado às 15:00



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