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Singularidades de um terçolho

por Cláudia Matos Silva, em 23.12.15

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M. parece esquecer-se das grandes lições que me ensinou, pelo menos deixou de as aplicar a si própria. E que falta lhe têm feito aquelas receitas recheadas de optimismo e bom humor.

M. fez de mim a mulher que sou, para o melhor e o pior. Bem sei que o pior não foi deliberado, conta a boa intenção, mas o excesso de protecção fez de mim uma 'atada', frágil e muito susceptível a melindres. M. já me disse várias vezes que eu deveria ultrapassar as mariquices, tornar-me adulta, mas esquece-se que sou assim porque ela esteve sempre a meu lado com a asa de galináceo a proteger-me. Ao menos apenas me amparasse a queda, do mal ao menos, mas M. nunca me deixou sequer voar quanto mais cair. Apertava-me num espartilho de cuidado e ternura, gostoso mas sufocante.

Eu sou a razão de viver de M., bem sei, e por isso nunca a acusei de me ter travado quando na verdade precisaria de um valente empurrão para voar e me fazer à vida. M. esquece tudo, o bom e o mau, não gosta de viver de recordações, muito menos do passado. Se olha para mim sinto-lhe uma mágoa, gostava que eu fosse mais atrevida, espevitada, porque não dizê-lo, um pouquinho maliciosa e até sacana. M. foi isso tudo e muito mais, e para ser uma super mulher, nem a ausência de capa lhe manchou a reputação, enfim, foi apenas um detalhe.

De super não herdei nada. Sou super-medrosa ou mesmo super-preguiçosa, e não consigo esquecer o passado. E esse passado é tão presente que me rouba horas de sono. Não sou a mulher que a minha mãe gostaria, e ela foi a mãe que nunca mereci.

A todo o custo dou o meu melhor, sei que sou uma boa filha, com a mesma certeza que sou um bom ser humano, mas não fui preparada para me desenrascar numa sociedade doente. Embora sã, com o juízo intacto, de nada me vale quando todo o mundo se vai safando com insensatez, despropósito e loucura.

São 8.15 da manhã, ligo a M., ela já fez a caminhada matinal, conta-me que está chateada, tem um 'terçô', eu digo terçolho, ela insiste no termo 'terçô' e dói-lhe muito.

- Está bem mãe, pega na aliança esfrega-a numa camisola e coloca-a quente sobre o terçolho.

 

- Ah! - grunhe espantada.

 

- Então não te lembras do que me ensinaste?

 

- Eu não. Essa coisa da aliança fui eu que te ensinei?

 

- Sim mãe. Tal como me ensinaste que devo acompanhar a omelete com pão para encher o bandulho e poupar nos ovos.

 

- Ó filha, isso já faz tanto tempo. Bem sabes que o pão engorda, come só a omelete. Quanto ao 'terçô', vou dar um saltinho à farmácia.

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publicado às 08:59



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