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Quando ela vendia enciclopédias

por Cláudia Matos Silva, em 09.01.15

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Uma cidadã do mundo com apenas 18 anos, havia percorrido os locais mais interessantes da europa e em cada um desses destinos deixou amizades que se prolongam até hoje. Era boa miúda, sincera, muito sincera, às vezes áspera nos suas posições mas até isso a distinguia das demais da sua idade. Formada, acabou a licenciatura com excelentes notas e uma vez no mercado de trabalho andava à deriva. Num dia como qualquer outro fui a casa dela, brinquei com o seu cachorro no chão da sala, e como de costume, enchi-me de pêlos, e ela perguntou-me se não gostaria de a ajudar. Para tal, eu poderia ter imensas vantagens, mas apenas se o meu teste fosse superado pelas minhas próprias respostas ao inquérito que segurava nas mãos. Percebi, ela andava a vender/engrupir enciclopédias, mas com um método requintado. Se eu tivesse respondido o que era suposto, ao que percebi ser um inquérito faccioso, seria premiada com uma enciclopédia e o assunto ficava por ali. O que não convinha dizer, aceitar aquele prémio, implicava o comprometimento de 5 anos com a empresa a quem eu teria legalmente de pagar por actualizações ou novos capítulos das enciclopédias vindouras. Bem sei que ela precisava de uns trocos, mas preferia que me pedisse directamente dinheiro, por esse motivo, a nossa relação ficou em águas de bacalhau. A últimas vez que falámos, liguei-lhe a parabenizar por ter sido mãe e teve de desligar o telefone à pressão porque havia uma fralda borrada para trocar. Entendi, mas caiu-me mal, afinal havia perguntado com antecedência qual a melhor altura para ligar sem importunar.

 

Muitos anos depois, e com as redes sociais à perna, estabelecemos contacto. Ela já não vende enciclopédias, tem até uma vida invejável, uma moradia com piscina, trabalha apartir de casa, ao seu próprio ritmo, tem filho e marido. O que mais pode desejar uma mulher?

 

Aproveitámos para falar um pouco ao telefone, algo que noutros tempos fazíamos quase diariamente, e eu percebi naquele momento que a rapariga que vendia enciclopédias, mesmo sem as vender, continuava vivinha da silva e não gostei mesmo nada. Uma série de memórias do passado tomaram conta de mim e a lembrança de características que sempre me enfureceram em relação à sua forma de estar, afinal ela não havia mudado nada. Agora com dinheiro para grandes viagens, e sim continua a ser uma cidadã do mundo, mas na índole é exactamente a mesma. Enquanto fala comigo, mexe nos tachos, discute com o filho, grita com os amigos do filho e oiço ao longe o marido a ripostar, e eu, como noutros tempos oiço tudo aquilo e penso, há pessoas que nunca mudam e isso geralmente não é bom. Convida-me para ir lá a casa passar uns tempos, e mais memórias me agridem, as únicas vezes que tivemos um contacto familiar, terá passado o tempo inteiro em discussão com o companheiro, o actual marido. É embaraçoso a quem assiste, passados mais de 10 anos uma pessoa continua a ser o que sempre foi e nem sequer fez um esforço para se melhorar. E hoje não conseguimos ser amigas, e se preciso delas, mas não dá porque eu mudei, muito, e considero-me uma pessoa muito melhor, mesmo que pelo caminho haja feridas, mas lambo-as para sarar e delas resta uma cicatriz que nem se vê  a olho nú. Viver não é apenas deixar andar, é aprender qualquer coisa, ó menina das enciclopédias. 

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publicado às 11:45



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