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Quando a carne deixa de fazer sentido...

por Cláudia Matos Silva, em 25.10.15

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É com regularidade que oiço alguém dizer-me, sou vegetariano, e os motivos não distam muitos dos que me motivam a rejeitar a carne. Não sou convicta, ou pelo menos não era, até ao dia que um murro me assentou no estômago e cujo efeito ainda se faz sentir.

 

Há que compreender, os animais são animais, e o facto de os tratarmos como pessoas leva a equívocos. Mas a verdade é apenas uma, o humano tem-se vindo a melhorar em vários aspectos, valorizando tudo o que o rodeia. É por isso que olhar para uma vaca no pasto, apreciar-lhe o porte ou até colecioná-la em loiça e canecas, para mais tarde tê-la grelhada no prato e tentar lamber os beiços sem culpa, afecta e em muito a relação que temos com a comida. Eu diria que não fazem sentido todas as tendências que surgem em termos nutricionais, desde barrras energéticas a batidos, e um sem número de dietas que as pessoas adoptam porque deixam de se rever no que a tradição lhes ditou como correcto; bife, arroz e batata frita. 

 

Porém, aconteceu comigo, o mesmo que terá acontecido com todos quantos me confidenciam, sou vegetariano. Eu não sou coisa alguma, os títulos são para a realeza e as etiquetas para as embalagens. Sou apenas uma miúda, sem qualquer talento para a cozinha, e que numa de 'popança do lar' comprou um frango inteiro, crendo ingenuamente que daria conta do recado. Nem o frango era frango, e a galinha que jazia nas minhas mãos deixou-me num tal estado febril que nem sequer a consegui confecionar. Ainda hoje tenho a sensação dos nervos, da pêle, da carne nos dedos, oiço as cartilagens, e lembro os ovinhos no ventre meio desfeito. O cheiro a carne e sangue entupiu-me o olfacto e durante alguns dias parecia ter o bicho junto a mim emanando aquele odor. Seria pecado ou castigo?

 

Não sei se voltarei a comer carne, talvez um dia quando ultrapassar este episódio, mas daquele dia até hoje rejeito-a visceralmente. Não é capricho ou mania, apenas não faz sentido na minha forma de estar na vida. É preciso, no entanto, reaprender a comer, como se começasse tudo de novo, o 'bê à bá' ou até mesmo caminhar. Sinto que é um caminho espinhoso, sim o peixe tem sido uma apaziguadora alternativa. Não deixa de ser desafiante comer com consciência, especialmente sofrendo de compulsão alimentar. Vejo-me com a responsabilidade de monitorizar tudo o que ingiro, a disciplina essencial para não me encaminhar para os excessos. Serei eternamente compulsiva alimentar, nem vale a pena camuflar este facto, como emocionalmente, ponto final. Forçar-me, no entanto, a uma alimentação consciente e ajustada às minhas necessidades tem-se relevado surpreendente.

 

O meu cérebro reptílico, continuará a assaltar o frigorífico de quando em vez, mas essas investidas estão cada vez mais controladas porque mantenho o instinto animal na mira da minha própria consciencia, o meu auto-conhecimento, a minha verdade. Não quero com tudo isto, emagrecer, nem me passa tal coisa pela cabeça, mas estabelecer uma boa relação com a comida é essencial para o meu equilibrio enquanto mulher que luta diariamente com sérios problemas de auto estima. Caminho, ainda que cambaleante, e sei que por hora este é o caminho certo. No futuro, o que virá? Não sei e sinceramente, pouco me importa. 

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publicado às 14:32



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