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Porque nos ligamos mais aos animais e menos às pessoas?

por Cláudia Matos Silva, em 03.11.15

Annex - Barker, Lex (Tarzan's Magic Fountain)_02.j

Conhecemos de cor e salteado frases como 'quanto mais conheço os homens mais gosto do meu cão', mas se isto não é mais do que um desabafo para mulheres com uma longa lista de desamores, também não deixa de ser verdade que as pessoas, em geral, se dedicam cada vez mais aos animais, os domésticos, em particular.

 

Se tentarmos procurar uma lógica para o facto de há uns tempos atrás ter tentado salvar uma gaivota em apuros, para depois borrifar-me para os 'ais' da vizinha da porta ao lado, isso só pode dizer de mim; mulher destemperada, com dois pesos e duas medidas e falta de bom senso. Acrescente-se ainda, pura insensibilidade, porque de qualquer das maneiras, a gaivota acabaria por morrer, e com um penso rápido talvez aliviasse a dor, mesmo que moral, da tal vizinha.

 

Não estudei a fundo esta questão, assumi-me como desajustada, e assim vivo um dia de cada vez, apreciando os muitos bichos que cruzam o meu caminho. Desde o cão sarnoso ao cavalo garboso todos merecem a minha atenção. No entanto, aquele individuo que caminha lentamente no meio da rua com os braços caídos ao longo do tronco e os ombros atarracados denuciando falta de alento, quero distância.

 

Páro o carro e aprecio um bode, sou incapaz de parar numa passadeira e deixar passar uma senhora que se desloca devagarinho sem soltar o suspiro pelos lábios, e nem me atrevo a revelar os terríveis pensamentos que me atravessam a mente.

 

Conclusão, o bode mijou-me em cima. Verdade. Eu dei uma valente gargalhada enquanto tentava escapar do último jacto de urina. A senhora idosa atravessando a passadeira acenou-me com a mão em sinal de agradecimento. Verdade. Eu não via hora de meter a primeira e seguir a todo o vapor o meu destino e enquanto aguardava o caminho livre ainda forcei um sorriso de enfado e o universo que me agradecesse pela 'boa acção do dia'.

 

Não posso ser a única a ter este comportamento! Aliás, não sou. Vejo-o todos os dias, com a diferença de que poucos se questionam sobre uma certas inversão de prioridades. Se antes estavamos uns pelos outros, agora estamos uns pelos animais e a maior parte pelo próprio umbigo.

 

Naquela manhã em Monchique regada com mijadela de bode, vislumbrei uma resposta, aligeirando o pesa na consciência.

 

Vamos aos factos. Eu prefiro o bode à velhota e isso não pode estar certo, não pode, mas é um facto. E se gostar do bode e da velhota, sim é possível, mas ao bicho vou perdoar-lhe tudo e à velhota, nada. E embora este pareça um dilema de dificil resolução, vamos recuar até à história do que livre leve e solto pulava de liana em liana 'Eu Tarzan, tu Jane'. É na simplicidade que se resume este encanto pelos irracionais, eles não pensam, não ponderam, não racionalizam ou manipulam, eles são animais e gostam de nós, tenhamos mau hálito, habitemos na mais profunda miséria ou desencantados com a humanidade, como resposta, nos tornemos execráveis. Os bichos gostam de nós, apenas isso. Aguardamos uma explicação, não, gostam porque sim. E é só disso que realmente precisamos, que gostem de nós sem artefactos, manhas ou interesses. Vá, gostemos uns aos outros, porque sim.

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publicado às 22:17



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