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O moço de recados casou-se

por Cláudia Matos Silva, em 29.01.15

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D. não era moço de recados mas todos os dias recolhia uma catrefada de pedidos dos colegas. Às 9 da manhã tinha por costume ir ao café tomar o pequeno almoço, e regressava 15 minutos depois com o bandulho transbordante em productos lácteos e as mãos atravancadas de sandes mistas e pequenos recipientes com café. O fadário de D., nunca se queixou, mas sentia-se num certo silêncio o incómodo da situação. O trajecto diário exactamente o mesmo e o pobre D. descida a rua de mãos a abanar, olhava para a vidraça da loja do avô, alcançando uma bela morena que lhe sorria. Se o caminho de volta era penoso e sem mãos a medir para tantos pedidos, D. ainda tentava espreitar para dentro da loja e trocar olhares com a doce morena de olhos cor de carvão.

 

Tantas semanas e quase parecia um amor platónico, D. subia e descia a rua apenas para olhar a desconhecida da loja do avô. Mas, de amores desavindos, D. tinha no coração a tatuagem do que sempre disse o seu primeiro e único amor,e dizia-me como se fosse uma donzela enamorada e púdica 'enquanto gostar dela não terei mais nenhuma, não vou consporcar este sentimento.' E assim foi, mas isso não impediu D. de num dia, aparentemente como outro qualquer, entrar na loja para fazer estremecer a morena de olhos profundos e dizer-lhe apenas que era uma linda mulher. Saiu disparado, sem aguardar resposta, mas aliviado. Urgia partilhar o quão bem lhe fazia, observá-la diariamente, enquanto no trabalho os colegos o tratavam como o moço dos recados, fazia-lhe tão bem que ela merecia saber disso.

 

Não é propriamente uma história com um final feliz ou principesco, mas convencional. D. casaria um ano depois com a verdadeira dona do seu coração, o primeiro e único amor, imaculado, cujo sexo há muito a caminhar para o 'médio menos' haveria de regredir ao menos zero. De notar que a regra se quebrava quando se lembravam, enquanto casal havia outro passo a dar, mais um degrau a subir, a paternidade. A maior parte das vezes ela pousava apenas a cabeça no ombro dele, imersos no profundo marasmo, D. cheirava os cabelos da sua amada e perguntava-se em segredo, se havia chegado ao fim da linha.

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publicado às 21:57



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