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O benfiquismo, esse sentimento que exalta a gente

por Cláudia Matos Silva, em 12.05.16

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(Imagem retirada de um anúncio do OLX) 

 

Quase quase amor à primeira vista, se não tivesse atirado a primeira 'padrada' anunciando o benfica como a sua paixão. Ripostei assumindo-me sportinguista, mesmo que de spontiguismo esmorecido falei-lhe do Dominguez e do Dany, pois ao tempo que isso já lá vai, conta-me, o futebol é outro e os futebolistas também. A verdade é que ele não quer deitar tudo a perder e deixa o assunto ir caindo para com os seus lindos olhos cinza me ludibriar entre assuntos tão mais do meu calibre como cinema europeu ou música dos anos 80. É efectivamente amor à primeira vista, sabemos agora, na altura é uma paixão avassaladora que não nos deixa tempo para dormir ou comer, dedicamo-nos a estar um com o outro, o dia todo e a noite também, e ele até perde um ou outro jogo do benfica, mas não me iludo. Sinto-o nervoso, irritadiço, às vezes frenético, outras apenas parvo, a insegurança leva-me a crer que é algo comigo, confessa-me que o benfica lhe altera os estados de espírito a ele como a mim própria 'o outro' benfica me deixa à beira de trucidar a população em geral.

 

Aceito as regras do jogo, não vale a pena competir com o clube, liberto-o, embora me questione a necessidade de ver absolutamente todos os jogos dos encarnados. Noto que há uma certa compulsão para o futebol, na tv alimenta-se apenas de canais de desporto como eu de cereais e bolachas. Não ligo, nem quero saber, mas respeito, às vezes até acompanho apenas com a presença física aproveitando duas horas do meu tempo para fazer coisas interessantes como enviar e-mails, actualizar o instagram ou pegar num livro há muito moribundo na mesinha de cabeceira. Sei que lhe agrada a minha companhia, a mim não me afecta acompanhá-lo nesta sua paixão, irracional. Questiono, no entanto, o gosto clubístico, mas sabemos que estas coisas não se escolhem, eu também não escolhi ser do sporting e nem por amor conseguiria mudar para o benfica.

E percebi isso no dia em que por superstição ele me leva a um boteco badalhoco para assistir a um jogo. Desconheço benfica contra quem, mas estou a favor de 'quem'. Sinto-o uma pilha de nervos, tem crenças, acredita mesmo, quando vê o jogo naquele pranto de desdentados e choco frito o seu glorioso vence. Eu fico inervada, a roupa tresanda-me a fritos, entornam-me uma cerveja em cima e começo a odiar todas aquelas pessoas, mesmo. Odeio-o a ele porque teve a indignidade de me enfiar naquele covil, ainda por cima sem wi-fi. Grita-se muito, estão sempre a dizer 'penalty', soltam-se perdigotos e as malditas cáries escancaradas mesmo diante do meu nariz. Perde benfica, perde, torço tanto e tão forte. Mas de súbito, nos últimos instantes o tal do Sanchez marca e eu sinto uma dor no peito quando todos se exaltam de satisfação. Eu não me movo, o meu rosto parece uma tela em branco, sem expressão mas sinto-me ferver. Ele reitera a importância de ali ver os jogos por questões de pura superstição, eu apenas lhe peço, se quer que a nossa relação continue a funcionar em harmonia e à prova de qualquer benfiquismo, ao menos quando eu estiver presente, assistamos aos jogos em terreno neutro.

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publicado às 21:55



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