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Lá vai ela de burkini

por Cláudia Matos Silva, em 27.08.16

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Factor 50, nunca menos. Besuntava a pele branca que nem cal e ainda usava a sombra do chapéu. A imagem de um escaldão remontava ao período infantil onde nem o creme nívea, o da embalagem azul, me salvava de profundas queimaduras, bolhas e até feridas. Depois dessa fase escaldante, remontando a mil novecentos e oitenta e tal, que não vou à praia, ou pelo menos tantas vezes quanto o típico português.  Se lá meti os calcantes, grafitarei um cálculo por alto, uma vez de três em três anos nos últimos 20 anos. Estas visitas esporádicas deveram-se a alguns sacrifícios de amor, porque só no amor nos propomos a fazer coisas de que gostamos menos. Aceitar o benfica foi o princípio, a praia viria depois, temo os próximos capítulos nesta bonita história de amor.

 

O amor me levava à praia, o amor me cobriria na praia, a pele, de creme. Não faço a apologia de colocar protector sem uma mão amiga, motivo que me valeu num destes dias um valente escaldão nas nádegas. O que aprendi desta experiência solitária e malfadada? Espalhar creme é uma arte e os anos do Camarinha nas praias algarvias não foram em vão, serviram-lhe para desenvolver a arte, a arte de cobrir, a pele, com creme.

 

As nádegas doridas, ainda ofendidas por terem sido esquecidas, lembram-me dores há muito não sentidas. Despeço-me, zangada, do factor 50 e opto por um trapo que me cobre do pescoço até abaixo dos joelhos. Nas redondezas, e se o calor aperta, sou a única pessoa vestida. Que se dane, protego-me ainda debaixo do chapéu e oiço piadas à minha indumentária 'lá vai ela de burkini'. Acho graça, sorrio, conto a história e até mostro as nádegas que não me deixam mentir.  

 

Fico à beira da água molhando até aos joelhos. O amor pergunta se a praia me sabe bem, e de olhos semi-serrados pelo sol que os encadeia, desabafo 'a praia está ótima, é pena este sol chatinho'. Ele sabe que se há coisa que não me entra na cabeça é o chapéu de palha que trago comigo. O modelo do burkini está muito bem pensado, aliás, as senhoras que rogam a Alá não deixaram nada ao acaso e até a cabeça está devidamente coberta. O sol chatinho não as irá atormentar e as dores de cabeça, típicas de fim de praia, ficam para os que estiveram sempre a girar a cabeça ao vê-las passar, e por assim dizer, a rasgar-lhes no burkini. 

 

 

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