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Carnaval é todos os dias

por Cláudia Matos Silva, em 09.02.16

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Carnaval, um dia como qualquer outro, mas nem sempre foi assim.

Passa da meia noite, conduzo por uma zona escura de Almada, contorno algumas rotundas e sem pré aviso uma estranha visão. Um pequeno grupo de pessoas, perfeitamente alinhados e imóveis, vestindo negro na já muito escura noite de Fevereiro, exibem apenas uma máscara branca, 'anonymous'. Sobe-me pela espinha um arrepio e embora me recorde que afinal não passa de uma brincadeira, porque é carnaval e ninguém leva a mal, eu lembro outros tempos, e a minha eterna falta de tolerância para brincadeiras de mau gosto.

Não direi que o carnaval era melhor, porque não gosto deste período festivo com ou sem brincadeiras, mas há uma certa melancolia na coragem que implicavam algumas peripécias. Muito antes dos balões de água, tendência que de alguma forma dita um fim das velhas e bravas tradições do carnaval português, havia farinha, ovos e bisnagas de água. Já as bombas de mau cheiro considero-as cobardes, quase tão cobardes como as máscaras dos 'anonymous', porque no fundo, hoje todos se escondem, seja numa máscara, num ecrã ou num teclado. São mais as vozes que as nozes e na hora de se arregaçar as mangas para um trabalho construtivo, todos cobrem as partes intimas com as mãos, exasperados, como se lhes tivessem roubado a toalha ao sair do banho. Já não se podem fiar no imaginário, sabem que para além de o orçamento escassear para a farinha e os ovos, também a uva foi inflaccionada e já nem a parra nos sobeja.  

E se nos tempos do ensino preparatório/secundário aproveitava para 'zerar' todas as minhas falta da caderneta verde porque tinha francamente medo de andar na rua e levar com um ovo, não só essa memória mas como os palermas dessas brincadeiras de mau gosto, merecem-me algum respeito e consideração. Era necessária coragem para se abordar uma pessoa, chegar-se perto e esfregar-lhe um ovo na tola. Tantas vezes traídos pelos nossos que de mansinho nos deixavam a cara enfarinhada. Às vezes lá se via uma vítima, mais uma, pôr a chave à porta de casa com os ombros descaídos e o casaco de camurça manchado. Realmente ninguém levava a mal, embora eu evitasse sair de casa durante essa altura, na minha cabeça todos os medos tiniam e aos meus olhos vivia-se uma espécie de terceira guerra mundial na mais fina 'patisserie' nacional entre água, farinha, ovos - quantos bolos poderíamos ter feito?! 

O que eu tinha como certo é que tudo terminaria, incluindo a folia desproporcionada com mulheres branquelas e com o rabo flácido em corsos de carnaval tentando sambar à luz de uma tradição que nem sequer é nossa, entoavam músicas como 'mamã eu quero' ou cachaça não é água não'. Hoje inquieta-me o facto de não saber muito bem quando começa e termina o carnaval. Sinto-me constantemente alerta, porque noutros tempos o meu 'inimigo' fazia questão de se apresentar para que a ele fosse atribuído o mérito da maldade, mas agora, são todos 'anonymous', o ano inteiro. Não sabemos quem são porque não têm rosto, mas existem, e mesmo silenciados sabemos que irão manifestar-se, mas ninguém sabe ao certo, quando. Há quem os chame de 'haters', nome que até lhes confere uma certa pinta, eu prefiro um termo bem português, cobardolas. À sombra das redes sociais fazem trinta por uma linha: aterrorizam, chantageiam, ameaçam. Para todos os anónimos, o carnaval faz-se 365 dias por ano, mais coisa, menos coisa. 

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publicado às 05:51



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