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Dormindo com o inimigo, não é um filme, apenas um jogo

por Cláudia Matos Silva, em 14.04.15

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Não ligo a futebóis, mas assumo um sportinguismo inexplicável. A primeira e última vez que fui ao estádio assisti de camarote a uma triste derrota dos verdes contra o Chelsea, e se eu até gosto de futebol inglês (não comecei por dizer que não ligo a futebóis?), a verdade dos facto é que estar entre iguais levou-me o ar directamente aos pulmões e mesmo com o pesar da derrota, estavamos juntos. Creio, se à semelhança do Benfica e o truque da águia Vitória no início dos jogos, os nossos jogadores se assumissem em quatro linhas como uns verdadeiros leões em vez de gatinhos domesticados, a coisa corria-nos francamente melhor.

 

De qualquer das formas e porque não ligo a futebóis, certo, H. marcou uma ida à Luz para assistirmos ao frente a frente com a minha querida Académica. Nascida em Coimbra tenho aquele orgulhozinho que se manifesta timidamente pela Briosa. Mas eu não ligo a futebóis, nada abalaria a minha paz, nem sequer 55 mil adeptos frenéticos trajando vermelho e branco e com um auricular no ouvido para seguir a par e passo o jogo do Porto com o Rio Ave. Caminhava em direcção ao estádio e já as minhas entranhas latejavam, faltava-me o ar, mas continuei de passos firmes rumo à Luz e a Académica comia o primeiro golo, respirei fundo, baixei a cabeça e fechei os olhos. Vá, mantém-te firme. H. estava irritado, havia perdido o primeiro golo do seu glorioso e eu uma pilha de nervos porque sabia perfeitamente que iamos chegar a tempo de ver tantos outros, balas de canhão para o meu coração.

 

E assim foi, homens, mulheres e crianças todos vestindo a rigor, cantando hinos, vibrando afoitos cada golo, cada minuto, os pés batendo no chão até quase a extrutura estremecer. Eu estava à beira do vómito, e para quem não liga a futebóis, havia um sofrimento sintomático, tudo me transtornava. E o meu amor por um 'cronico-benfiquista' não fica de modo algum melindrado, mas por mais cedencia que há a fazer numa relação, mudar de clube nem sequer é uma questão. E não sei porque há-de ser assim, preferia relativizar estas questões clubísticas, mas sinto na pele a repulsa por um clube cuja religião é abraçada por H.

 

A académica marca o primeiro e único golo da partida, sou a única a levantar-me entre 55 mil pessoas e grito e esbracejo e sou a mais histérica das mulheres no estádio. E fico afónica. O sangue corre mais depressa, sinto-o, as mãos tremem, os lábios estão secos e a emoção toma conta de mim, imprudente, entre um campo minado por inimigos.

 

Sento-me junto a H. que no fundo está magoado, não pelo golo mas pela minha explosão de felicidade masoquista. Mas não há motivo para tal, digo-lhe relativizando, eu nem sequer ligo a futebóis!

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publicado às 13:07



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