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Dar ouvidos ao que o corpo tem para dizer

por Cláudia Matos Silva, em 22.05.15

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De há um ano a esta parte, tenho vindo a ganhar peso, e decidi não me ralar com isso. Assumo enquanto lá vai mais um bolo ou um salgadinho, num ou outro acto alimentar conscientemente suicída. Há ainda quem tente justificar o meu aumento de peso com questões hormonais, são provavelmente as desculpas que ouvem de outras tantas suicidas (inconscientes). Já se atribuiu o meu actual volume corporal a gravidez, podia perfeitamente embalar nessa mentira conveniente e gerar uma onda de condescendência em meu redor. Em vez disso respondo, seca, 'eu não estou grávida, estou gorda'. E poucos parecem preparados para tanta frontalidade, porque logo se preparam para um role de desculpas que eu própria dispenso 'estou gorda porque faço assaltos suicídas ao frigorífico'. As pessoas sorriem, julgam-me espirituosa, e eu vou eu ao café comer uma bola de berlim. Lambo os beiços e quando uma névoa de culpa me sobrevoa a mente, afasto-a à pedrada. Numa fase de tanto aperto, sinto umas algemas invisíveis prender-me os movimentos, toldar-me até a mente e a criatividade, ao menos comer ainda é um acto de liberdade e se eu como.

 

A roupa de magra deixou de me servir, mas não me atrapalho. Descubro lojas com roupas de tamanhos grandes, compro o L e depois o XL até já visto o XXL se preciso for, mas não deixo de sair à rua de cabeça levantada, bem ataviada e a soltar um aroma perfumado que emana a minha pele. 

 

Estou meio disforme, sem pescoço, a minha cara está redonda como uma bolacha, e comer tem sido das melhores coisas a recolher dos últimos tempos. E como com brio, prazer e até algum orgulho besta, ao estilo ' estou-me borrifando para o peso.' 

 

O problema surge quando o corpo lança sinais de que nos andamos a tratar mal, porque já não basta toda a gente neste país nos tratar a pontapé, se sou a primeira a descuidar-me atentando contra o meu bem estar, há algo que pode correr muito mal. Então, mas que se lixe os diabetes e a pressão alta, desde que não faça exames, enterro a cabeça na areia como a avestruz e continuo a enfardar bolos como se da crise económica houvesse o risco de encerramento de todas as pastelarias do país. 'Que se dane' sigo a minha animalidade lamebendo os beiços aparando com a língua pedacinhos de açucar em pó, provas de um crime acabado de cometer. 

 

Mesmo sem exames ao sangue, o corpo dá sinais, mais ou menos explícitos. Doi-me a coluna, as articulações, acordo cansada. 'Quero lá saber', insisto, não por muito tempo. Uma noite na cama, sinto um ácido angustiante subir o esófago e banhar-me a garganta. Fico nauseada, não dou demasiada importancia, quem nunca teve refluxo?! Mas acontece outra vez, e outra e instala-se o medo de mais uma crise. Tomo gaviscon, e mais não sei o quê, procuro na internet as possíveis causas, obesidade é das primeiras. O corpo lança agora o derradeiro aviso e desta vez eu tenho mesmo de lhe dar ouvidos.

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publicado às 08:12



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