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Aos que ainda sonham

por Cláudia Matos Silva, em 14.11.14

Annex - Karloff, Boris (Bride of Frankenstein, The

Desde pequenina se fala de comunismo em minha casa. O meu pai e o seu punho erguido contra o capitalismo, aquele disco riscado que me apetecia espatifar. Do outro lado da barricada a minha mãe, direita, o mais possível, elitista, o seu nariz empinado e a mão agarrando os carcanhóis. Por uma questão de bom senso decidi ficar no centro, no fundo era mais inteligente que os dois, pensava. Vivo desde sempre absolutamente despreocupada das lides políticas e isso quer também dizer que o meu voto ao centro é mais ou menos como aquela pessoa que atira à sorte, descargo de consciência, com a garantia que não vai causar grandes estragos. O facto de ter cartão de eleitor logo aos 18 anos deixava-me de peito feito como quem tem consciência política de gente grande. Sentia requinte em salientar ao meu pai que nunca votaria pcp, ele abria-me os olhos e abanava a cabeça, conseguia ler-lhe os pensamentos 'pobre coitada, sabes lá'. E realmente, eu não fazia ideia.

 

Um dia mais tarde, na faculdade, criando antipatia entre uma certa classe de encamisados na turma, terá chegado aos meus ouvidos que desconhecendo o meu nome se referiam à minha pessoa como 'aquela fufa, intelectual de esquerda'. Soube instintivamente, o meu pai havia-me injectado a cápsula Marxista e contra isso nada podia fazer. A maior de todas as provas, a minha embirrância com a sua preferência política.

 

Caminho, politicamente como numa corda bamba que se situa no centro mas o insconsciente leva-me um pouco à esquerda, e sei-o pela exclusão total e absoluta que tenho à direita e a todas as formas e expressões que a representam. Dá-me febre, urticária, cândídiase e herpes labial, só para início de conversa. É efectivamente uma reação alérgica e física.

 

Quando o meu pai me injectou esta cápsula foi com a melhor das intenções, é por isso que embora sejamos dois inadaptados, continuamos secretamente a acreditar na utopia. Sonhamos acordados e a dormir também. E mesmo que as faces nos corem, infantis, por não conseguirmos ver o mundo feio como realmente é, vamos acreditando em pequenos milagres. 

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publicado às 20:15



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