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Amar os bichos, é respeitar a natureza das coisas

por Cláudia Matos Silva, em 09.02.15

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É um café pequenito, tem o Correio da Manhã para desfolhar enquanto beberico a primeira bica do dia. Os proprietários não são especialmente simpáticos, e porque grande parte da vida activa viveram nos Estados Unidos julgam-se, na sua pequenez de espírito, superior aos seus, os portugueses. Incomoda-me aquele constante desdem do seu país, quando o que é pequeno não é Portugal, mas a mentalidade de alguns portuguesinhos, e esses encontram-se no território das quinas como em qualquer parte do mundo. 

 

Não é novidade, gosto de bichos, todos os bichos. Mas nesta minha paixão, evito colocá-los acima das pessoas, como acontece, pronto. Fundamentalistas da defesa animal vão ao extremo e roçam o ridículo. Porque acredito que os bichos sentem, sentem mais do que imaginamos, mas não deixam de ser bichos e nunca devemos esquecê-lo. A propósito, lembro-me quase sempre de uma cena de um dos meus filmes favoritos 'The truth about cats and dogs', uma veterinária com um programa de rádio, recebe a queixa de um ouvinte. Após ter sido lambido insistentemente pelo gato ficou com a pele  irritada, desesperado pergunta 'o que devo fazer?'. A veterinária e o seu extraordinário dom da palavra lembrou-o do seguinte facto, bichos e homens, entidades separadas. Pediu-lhe para repetir com ela, em jeito de mantra e muito pausadamente 'Us/Them' (Nós/Eles).

 

É claro, para quem ama realmente os seus animais, sacrifica-se à dimensão do ridículo. Eu por exemplo durmo mal na minha própria cama, para que as feras se refastelem a seu bel-prazer. Sei que às vezes, demasiadas até, lhes confiro uma dimensão humano e esqueço as palavras da protagonista 'The truth about cats and dogs' - 'Us/Them' e sem dar por isso sinto-os como 'one of us' e ultrapassam-se certos limites no que ao bom senso diz respeito. Mas é tudo feito entre quatro paredes e o meu jeito de amor os meus bichos é meu, e ninguém tem nada a ver com isso. No entanto, a maneira como se maltratam publicamente outros patudos, é um assunto que mexe profundamente comigo e deveria ser discutida na asta parlamentar. A minha explicação baseia-se num facto que não deverá levantar grande discussão,  quem maltrata e abandona um animal inocente, também o fará a um humano. 

 

E todos os dias me cruzo com bichos atropelados, muribundos, perdidos e se pudesse, garanto, trazia todos para a minha casa. O mesmo não pensa o proprietário do café que avistando ao longe um cão de grande porte e coleira terá dito 'um dia dou-lhe uma cacetada'. Olhei o velho homem, mas com as veias raiando ódio havia cegado naquele instante.  O café pousado sobre a mesa e ali ficou, intocado, não estava capaz de ficar num sitio onde se usa da violência, mesmo verbal.

 

Lá no país de onde ele veio, e até tem uma nota de dolar pendurada junto ao balcão, certamente haverá uma lei de protecção dos animais. É assim em qualquer país evoluído e por evolução não me refiro a grandes metrópoles com arranha céus até perder de vista. Já toda a gente conhece a citação de Gandhi ' A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo que seus animais são tratados', e certamente o guru não falava de uma cultura cujo dolar é emoldurado como validação de moral, que felizmente, ainda não se compra nem com euro, libra ou zwanza.

 

Gosto muito do meu país, tanto que não fazem ideia, no entanto detesto quem o defralda, não por partir em busca de melhores oportunidades, mas porque diminui, e até renega o seu berço. Quem é bem nascido, tem na sua vida o respeito pela natureza das coisas. Em Portugal ou em qualquer parte do mundo há gente que não vale um chavelho e enquanto assim fôr, é aos bichos que dou o melhor de mim.  

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publicado às 11:53



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