Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Agulhas & Companhia

por Cláudia Matos Silva, em 26.11.14

13259_792823250774114_6647346236270206896_n.jpg

Longe de mim conhecer as técnicas para se educar uma crianças, mas os pézinhos de algodão que os adultos usam na educação dos mais novos e a abordagem nas questões inevitáveis,  servem apenas para criar jovens adultos com personalidades de cristal. Queremos proteger os nossos meninos, amparar-lhes as quedas, poupar-lhes os desgostos ou os mal-entendidos que fazem parte do crescimento. Há um movimento, oiço falar dele desde 90's, defende que nunca se deve usar a palavra 'não'. Um 'não' bem dito, assumo, tem o mesmo poder da palmada assente na hora certa. Sabemos pela evolução (ou regressão?) que um e outro estão neste momento a ser suprimidos na educação das nossas crianças. Julgo que o objectivo é fazê-las acreditar que basta sonhar e tudo é possível, mas como a mente humana é pródiga em subverter a leitura que farão é de que podem tudo. Do topo da sua basófia, roçam tantas vezes o desrespeito, ninguém teve coragem de lhes dizer 'filho, tu não sabes cantar' e bem pelo contrário estimulam a seguir um sonho, num autismo que mais tarde irá reflectir um adulto frustrado e com um discurso de total incompreensão, afinal entre a selva dos crescidos as coisas não são como lhe disseram. Sonhar não basta, não, eles não podem tudo. O não está lá, as portam fecham-se na cara e há que bater novamente. A humilhação é permanente. E temos bonitos jovens com as suas personalidades de cristal dilacerados na dor da descoberta da mais pura realidade.

 

Nas aulas de trabalhos manuais os meus professores nunca mentiram, eu não tinha talento, para premiar o meu esforço não me chumbaram, mas ouviria num comentário espontâneo acerca do tapete feito em base de serapilheira, 'que grande porcaria está para aqui'. Na altura teria 14 anos, caiu-me mal, passados 10 minutos passou-me. Pouco dotada para a língua francesa, a professora ter-me-á chamado à parte para constatar esse facto, não gostei, especialmente porque pedia a todos que lessem em voz alta menos a mim. Hoje percebo que foi para nos poupar às duas. Também a minha mãe para nos poupar às duas, terá dito que seria a mais bela flor do seu jardim, mas aquela tendência que todas as adolescentes têm para cantar e sonhar em ser estrela da pop nunca iria acontecer, e nem sequer no banho a minha estrela havia de brilhar. Confesso, desejei que tivesse mentido, porque pensei que mentisse em tudo o resto quando me elogiava, naquele momento soube que não.

 

Mas o 'não' quer dizer que não faça as coisas se realmente gostar? Claro que não. Bem sei que não tenho qualquer talento para trabalhos manuais, crochet, nomeadamente. No entanto, gosto, mas não serei nunca uma artesã, e essa noção descompromete-me, e só para variar essa sensação é absolutamente fantástica.  Descomprometida, sem expectativas, tenho a minha caixa às bolinhas cheia de lãs coloridas e agulhas. Os gatos odeiam o tempo que perco entre fios e meadas, reclamam colo e atenção, esfarelam-me o papel de parede como vigança. Mas depois deitam-se a meu lado. Dou vida a peças imperfeiras, uma extenção do meu próprio carácter, também cheio de contradições e falhas. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:49



Sem Título22.png

 




Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D




page visitor counter