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A vida em saltos altos

por Cláudia Matos Silva, em 04.01.16

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Atenção, não foi um simples malho. Não se pode incluir na lista das escorregadelas em casca de banana ou tropeções, muito menos um 'bate-cu'. Um monumental tralho dos que nos melindra o ego, ruboriza as faces com direito a joelhos esfolados e o cabelo em desalinho. Não esquecerei, uns lindos sapatos de plataforma, vermelhos, comprados na Aldo. Os meus primeiros (e últimos) sapatos na Aldo. Na bela Lisboa dos arrumadores entre carros estacionados em cima do passeio e uma calçada tão caótica que só poderia ser chamada de portuguesa, o meu nome não é Inês, nem vou pela verdura, mas assumo-me formosa porém insegura. A cidade fica rendida a meus pés, todos observam o meu pequeno pé de gueixa, apertadinho, mas com o passar das horas o que antes sabia a aconchego bom, agora é como se o diabo me lancetasse os calcanhares com a maldita forquilha.

 

Ai, eu não estou nada bem, mas não cedo. Uso do truque de auto-defesa 'o meu rosto é uma folha em branco' e não se passa nada. Os meus passos são de caracol, o meu destino fica ainda tão longe, apetece-me na verdade fazer como a minha avó, ir descalça e com a troxa em cima da cabeça. Hoje parece uma loucura mas é imagem que guardo dela, fazendo tantos quilómetros sempre de pés nús. E eu fui tão forte, não cedi ao pé descalço, mas senti ao que sabe o poder devastador de um mau calçado.

 

Desde então, e porque os ténis estão na lista de qualquer 'must have' e não tem forçosamente a ver com uma vida desportiva, investi no conforto. Aliás os 'sneakers' têm andado nas red carpets e os meus pés não são menos dignos deles, mesmo que não se estenda uma passadeira vermelha à minha passagem. A verdade é que já tinha ouvido bocas de quem outrora me conhecera 'altaneira' de saltos agulha 'andas atarracada, pá'. E lá vinha a estória de uma queda tão aparatosa cujo resultado serviu para guardar os saltos altos em caixas bonitas como quem esconde uma relíquia.

 

Não tomem o meu retorno aos saltos altos como uma resolução do novo ano, mas o apaziguar da dor e humilhação. Colecciono dores com vários formatos e texturas, cola-se à pele alguma humilhação por situações ainda por superar, mas julgo para mim, os saltos altos fazem-me avançar em alto estilo. Ando devagar, atenta, umas vezes colo os olhos no chão, outras fico com o nariz apontado às nuvens, mas que ninguém me tire os meus saltos altos.

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publicado às 14:48



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