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A história de um ego em fanicos

por Cláudia Matos Silva, em 16.09.15

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Estranhei a forma desempoeirada de encarar, em Dezembro de 2014, uma chamada ao quarto piso do prédio onde trabalhava. Seria o início de um ciclo, é certo, mas o fim de uma vida inteira dedicada a fazer o que sem escolha se tornaria numa paixão. Daquele Dezembro em diante, não seria a mesma, mas isso não se manifestava com desconforto, bem pelo contrário, havia uma nova vida para viver e um mundo de oportunidades para abraçar. Não chorei, nem me lamentei, muito menos conspurquei as redes sociais com palavras odiosas, dedicava-me a amar em grande os pequenos momentos.

 

As feridas profundas têm um jeito estranho de se manifestar, como uma doença que nos apanha pela calada, parece estar tudo bem e de um momento para o outro caímos, e só nesse instante de queda inesperada ganhamos a humildade dos que há muito compreenderam como somos frágeis,e por tudo ou nada, quebramos.

 

Sinto-me quebrada, é uma dor que me arrepanha até ao escalpe. Tenho febre, juro. Frio e calor ao mesmo tempo, acreditem. Mal consigo abrir os olhos e encarar a luz, percebem? Doi-me o ego escangalhado, e desconfio não há cangalheiro que lhe dê utilidade. É apenas mais um ego doente que caminha entre outros 'mortos/vivos', sangra e não estanca, e eu só queria uma coisa, tão simples e até insignificante, conseguir chorar. Chorar como uma criança a quem nasce o primeiro dente, que de tanto chorar o rosto deixasse este tom pálido, e de corado, se transformasse em vermelho vivo e até arroxeado, porque não. E havia de gritar, bramir, esbracejar, dizer ao mundo inteiro que não é justo, nada disto é justo se ego se degladia com falta de amor próprio.

 

E já cansada, as veias da garganta latejantes, o cabelo em desalinho e acompanhada por um gato carinhoso mas de cauda eriçada, a ferida deixava de ser apenas aquele poço ensaguentado e sem fundo. Via-se uma ténua camada de crosta, a primeira, ainda frágil e a certeza de que gretaria várias vezes, mas o ego erguer-se-ia, vaidoso, e diria como uma lição rcém aprendida ' para me levantar foi preciso cair'.

 

Faltam-me no entanto as lágrimas e com elas toda a minha vontade se esvai numa existência, mais ou menos, e assim num marasmo sem precedentes, não escrevo, não crio, nem creio em mais nada. Todos os dias são, mais ou menos iguais, arrasto-me seca, quando antes sequiosa consumia o mundo com as 'ganas' de uma Isabel Pantoja que vive apaixonadamente todo e qualquer desamor. Deserto desconsolado, é aqui onde me encontro, não tentem encontrar este inferno, é apenas meu e não o partilho com ninguém. E por isso não peço desculpa, como não peço por nada nem ninguém. Danem-se.  

 

Vivo um dia de cada vez, egoista, a cada instante um pouco mais de egoismo se apodera de mim e o ego em fanicos, é incapaz de entoar sequer um 'tiru-liru-ló' na versão da sô dona Amália para o libertar de tão triste fado. 

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publicado às 19:29



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