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A bandeira verde

por Cláudia Matos Silva, em 16.06.16

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-Hoje está bandeira verde.

 

- Isso é o quê?

 

- Não estás habituada a vir à praia, pois não?

 

A praia nunca foi ' a minha praia', e se me intrigava especialmente no mês de Agosto, em que a palidez da minha pele denunciava a estranha forma de viver o verão, debaixo de uma sombra encontrada ao acaso. Mas a infância teria sido pródiga em escaldões na que recordo como 'a praia do cagalhão', Cruz Quebrada.

 

Em plenos anos 80, vindos da província qualquer pedaço de areia faria o nosso céu, pensarão, mas não era bem assim. A minha mãe detestava a Cruz Quebrada, por ela iríamos para Carcavelos, o meu pai assumido inimigo de multidões escolheu naturalmente uma das praias menos turísticas que tínhamos perto de casa. Na hora de decidir os destinos do país, ele envergando ao peito um pin com o símbolo do martelo e da foice, ela orgulhosa pelo seu voto no quadradinho dos cor de laranja, deixavam-me à solta com apenas 6 anos, recusando ficar debaixo do chapéu nas horas de maior calor. Mais tarde sofreria as consequências na pele, literalmente . A minha mãe explicou-me anos depois que terá cumprido a sua parte, ter uma sombra e um creme protector, a minha teimosia seria a maior de todas as lições e um trauma para a vida inteira.

 

Atravessamos o rio Tejo assentamos arraiais na margem sul, algures num calhau na Costa de Caparica se escreve a azul CDS, assim ficam conhecidas as praias junto às estações do autocarro. Por essa altura o meu pai já guardou o pin do PCP mas continua Comunista à sua maneira, a minha mãe anda com uma fotografia do Cavaco Silva na carteira e eu para além de odiar política, odeio praia. O nosso primeiro carro, um Cinca amarelo, tem sérios problemas de sobre-aquecimento, parecemos os três estarolas para onde um vai, os outros seguem atrás, detesto que assim seja. Passamos o verão na Cova do Vapor, a minha mãe diz em surdina 'é a praia do cagalhão', mas essa não era a da Cruz Quebrada? - pergunto baralhada. Basta de explicações, sou adolescente e a minha vida é efectivamente um cagalhão.

 

Muitos anos depois regresso à Cova do Vapor, a adolescência ficou finalmente enterrada em castelos de areia que se esfumaram nas brumas de uma memória de que guardo pouca saudade, e reparo hoje sou feliz. Sento-me a petiscar nas espreguiçadeira do novo restaurante Albatroz, vejo o pôr-do-sol, reflicto sobre os quase 40 anos e sinto-me muito contente por ter crescido. Não há mágoa pelos escaldões ou pelas sardas desmascaradas na pele, há carinho e estima. Sorrio sozinha pelas incontáveis vezes que ali terei escutado 'Use your illusion I and II' dos Guns n' Roses, e respiro de alívio porque a adolescência finalmente passou. O agora é muito melhor, mesmo que às vezes seja difícil assumir optimista. Mas a bandeira está verde, a água está boa para nadar, façamo-nos a ela sem medo. A vida também é isso, águas mais ou menos frias ou turbulentas em dias mais ou menos navegáveis.

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publicado às 17:51



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