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Os putos da rua

por Cláudia Matos Silva, em 27.06.16

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Cresci nos subúrbios dos anos 80 entre bonitos eucaliptais que progressivamente se viam engolidos por uma selva de betão. Havia lama para fazer bolos de areia, águas malcheirosas que se acumulavam das chuvas, terra húmida para brincar ao 'espeta', uma mão cheia de berlindes e os malfadados abafadores. Os putos da rua, aos meus 8 anos de idade, foram os heróis mais imediatos que conheci. Usavam jeans escuras e apertadas e durante o dia inteiro só tinham olhos para a miúda mais maneirinha das suas vidas, a bicicleta. As outras, onde eu me incluía, ficavam à parte a vê-los passar.

 

O meu manto de invisibilidade permitia-me passar por entre as gotas da chuva e observar atentamente, sem ser denunciada, os episódios dos putos da rua. A 'patinho feio', a quem não se presta atenção, ia escapando como podia às maldades dos putos. Infelizmente deu nas vistas em pouco tempo e não pelos melhores motivos, nestas idades nunca é pelos melhores motivos. As alcunhas eram terríveis e o ego escangalhado sorvia em silêncio lágrimas de humilhação. Os pais raramente metiam o bedelho em assunto de miúdos, afinal tínhamos de aprender a defender-nos desde tenra idade. Os pequenos dramas vividos na rua tomariam a dimensão de uma vida, como se o mundo inteiro bradasse contra nós, mas o que viria depois, a vida adulta iria desenhar-se com linhas sinuosas e tempestades difíceis de travar.

 

As minhas faces permanentemente em brasa revelavam o desconforto geral da infância e início de adolescência, por mais invisível que tentasse ser havia algo que chamava sobre mim as atenções. Não sabia como lidar, como agradar, como fazer entender que até me podia rir de mim mesma mas no fundo estava em sofrimento e só queria que me deixassem seguir com a minha triste existência de criança encerrado no meio de uns óculos e de uma franja.

 

Num desses dias, talvez fosse inverno, cheirava a terra molhada, brincámos nos prédios em obras e de qualquer cana fizemos um brinquedo. Os putos da rua iam sempre mais longe, mais velhos tinham manha ou artimanha, não é de estranhar vê-los a congeminar entre os eucaliptos. Encontraram cal numa obra e os próprios se lembraram de fazer uma obra de arte, à época, megalómana. Chamam-me, 'ó não', penso. Levaram-me junto de uma imponente escultura branca que jaz no chão de terra batida, geometricamente instalada, uma instalação. Perguntam-me o que parece. 'Ó diabo', tenho perto de 9 anos, acho que já vi aquilo em algum lugar; uma parte dianteira proeminente e duas rodas traseiras monumentais - será o carro do Ayrton Sena? Não os contei, mas os risos foram tantos e não os consegui guardar todos na memória.

 

Bolas, eu até sabia que se tratava de um falo, mas queria agradar, por aquela altura a fórmula 1 estava na moda e os putos da rua tinham o hábito de colar os posters da página central da revista do Correio da Manhã nas paredes do quarto. Podiam ter a Samantha Fox ou o Nelson Piquet entre a colecção de latas de refrigerante.

 

A história repete-se ou talvez se renove. Anos 90, na sala de aula. Adolescente, algumas borbulhas, hormonas aos saltos. Uma paixão assolapada por um colega de turma, não quero passar despercebida, ele fala comigo como se eu fosse 'one of the guys', não estou nada contente, ele pelos vistos também não. Passa as aulas inteiras a desenhar, agarrado a um caderno de folhas quadriculadas e capa preta. Partilha mais uma das suas teorias eu faço de conta que oiço. Hoje quer apenas que lhe aprecie os desenhos, passa-me o caderno para as mãos, pergunta o que me parece tal rabisco. Ó diabo, já antes fui submetida a tal teste e chumbei vergonhosamente. Mas desta vez estou preparada, vou buscar um sorriso que copiei das moças que continuam a vir escarrapachadas nas centrais da revista de Domingo do Correio da Manhã e digo-lhe 'então, é aquilo'. Pega no caderno rapidamente e entre lábios deixa escorregar o veredicto 'é o edifício das Amoreiras' e se havia a esperança de que o meu atrevimento me pudesse levar à minha primeira conquista, desvaneceu-se à última punhalada 'não se vê logo?!'.

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publicado às 18:28

A bandeira verde

por Cláudia Matos Silva, em 16.06.16

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-Hoje está bandeira verde.

 

- Isso é o quê?

 

- Não estás habituada a vir à praia, pois não?

 

A praia nunca foi ' a minha praia', e se me intrigava especialmente no mês de Agosto, em que a palidez da minha pele denunciava a estranha forma de viver o verão, debaixo de uma sombra encontrada ao acaso. Mas a infância teria sido pródiga em escaldões na que recordo como 'a praia do cagalhão', Cruz Quebrada.

 

Em plenos anos 80, vindos da província qualquer pedaço de areia faria o nosso céu, pensarão, mas não era bem assim. A minha mãe detestava a Cruz Quebrada, por ela iríamos para Carcavelos, o meu pai assumido inimigo de multidões escolheu naturalmente uma das praias menos turísticas que tínhamos perto de casa. Na hora de decidir os destinos do país, ele envergando ao peito um pin com o símbolo do martelo e da foice, ela orgulhosa pelo seu voto no quadradinho dos cor de laranja, deixavam-me à solta com apenas 6 anos, recusando ficar debaixo do chapéu nas horas de maior calor. Mais tarde sofreria as consequências na pele, literalmente . A minha mãe explicou-me anos depois que terá cumprido a sua parte, ter uma sombra e um creme protector, a minha teimosia seria a maior de todas as lições e um trauma para a vida inteira.

 

Atravessamos o rio Tejo assentamos arraiais na margem sul, algures num calhau na Costa de Caparica se escreve a azul CDS, assim ficam conhecidas as praias junto às estações do autocarro. Por essa altura o meu pai já guardou o pin do PCP mas continua Comunista à sua maneira, a minha mãe anda com uma fotografia do Cavaco Silva na carteira e eu para além de odiar política, odeio praia. O nosso primeiro carro, um Cinca amarelo, tem sérios problemas de sobre-aquecimento, parecemos os três estarolas para onde um vai, os outros seguem atrás, detesto que assim seja. Passamos o verão na Cova do Vapor, a minha mãe diz em surdina 'é a praia do cagalhão', mas essa não era a da Cruz Quebrada? - pergunto baralhada. Basta de explicações, sou adolescente e a minha vida é efectivamente um cagalhão.

 

Muitos anos depois regresso à Cova do Vapor, a adolescência ficou finalmente enterrada em castelos de areia que se esfumaram nas brumas de uma memória de que guardo pouca saudade, e reparo hoje sou feliz. Sento-me a petiscar nas espreguiçadeira do novo restaurante Albatroz, vejo o pôr-do-sol, reflicto sobre os quase 40 anos e sinto-me muito contente por ter crescido. Não há mágoa pelos escaldões ou pelas sardas desmascaradas na pele, há carinho e estima. Sorrio sozinha pelas incontáveis vezes que ali terei escutado 'Use your illusion I and II' dos Guns n' Roses, e respiro de alívio porque a adolescência finalmente passou. O agora é muito melhor, mesmo que às vezes seja difícil assumir optimista. Mas a bandeira está verde, a água está boa para nadar, façamo-nos a ela sem medo. A vida também é isso, águas mais ou menos frias ou turbulentas em dias mais ou menos navegáveis.

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publicado às 17:51

A menina limão dá-nos uma lição

por Cláudia Matos Silva, em 01.06.16

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É a menina mais bonita do mundo, como o são todas as crianças desejadas, Carolina tem cabelos cor de sol que ondulam nas pontas, como os cantos da sua boca, se nos oferece um sorriso. Sentada numa cadeira com apoio, as mãos macias como algodão sobrepõem-se e dessa forma algo pomposa, a pequena Carolina absorve o mundo. Indiferente a quem com ela partilha a mesa, julgamos, vê-la revirar os olhos amendoados para nos espreitar de soslaio. É esperta, mas não uma esperteza saloia, diria que reside naquele palmo e meio de gente uma alma antiga que já viu tudo.

 

Queremos toda a atenção dela por isso rebaixamo-nos, dizemos tolices, ela sabe, usamos diminutivos ou até simplificamos alguns termos depreciativos como 'cáca'. Carolina reproduz mas fica no ar a estranha sensação de que é ela 'o padre' que nos ensina 'a rezar o sermão'. Continua a explorar com os cinco sentidos, todas as vibrações que a vida tem para lhe dar, como se já tivesse um reservatório de lágrimas e sorrisos para o efeito, preparada para celebrar e lamentar cada momento.

 

Sem medos, agarra num gomo de limão, lambe a casca, depois a polpa, mordisca-a com os seus (ainda) dentinhos de leite. Não é doce não, e se a pequena gosta de coisas açucaradas, mas há algo que a desafia, e segura a estranha fruta entre as mãozinhas cada vez mais pegajosas. Franze os olhos e a testa por cada vez que o ácido do citrino lhe queima o palato e resiste sem chorar, largar ou atirar para o chão. Não faz birra, não diz  'cáca' ou 'limão estúpido', nem sequer acredita que o mundo congemina contra si fabricando o mais intragável fruto.

 

Carolina aceita o limão, creio que a alma antiga que vive algures dentro dela já lhe explicou, no longo do caminho que tem pela frente nem tudo serão doçuras. Carolina tem 2 anos e já sabe isso. 

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publicado às 20:42


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