Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




A pouca sorte dos poetas

por Cláudia Matos Silva, em 28.09.14

'Um verdadeiro fidalgo como Orlando não precisava dos livros para nada. Ele que os deixasse, diziam, aos paraliticos ou moribundos. Mas o pior ainda estava para vir. Porque quando a doença da leitura toma conta do organismo, a tal ponto o debilita que o torna presa fácil desse outro flagelo que mora no tinteiro e supura na pena . O infeliz dedica-se à escrita. E se isto já é mau num homem pobre que não possui outros bens além de uma cadeira e uma mesa debaixo de um tecto carcomido - esse afinal não tem grande coisa a perder - a situação de um homem rico, que tem casas e gado, criadas, bestas e roupa branca, e mesmo assim escreve livros, é digna do mais extremo dó. Perde o gosto por tudo; trespassam-no ferros em brasa; rói-o a peste. Daria tudo o que tem, até ao último tostão (tal é a virulência do germe) para escrever um livrinho e ficar famoso; mas nem todo o oiro do Peru pode comprar-lhe o tesouro de um verso bem torneado. Por isso se consome e definha, dá um tiro nos miolos, vira a cara para a parede. Pouco importa a atitude em que o encontram. Ele transpôs as portas da morte e conheceu as chamas do inferno.'

 

("Orlando" Virgínia Woolf)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:51

Surdez e bom senso

por Cláudia Matos Silva, em 28.09.14

 

Depois de ultrapassada a fase autista do amor, mesmo perante claras adversidades, ignoradas, continuamos a acreditar que o amor tudo pode. Os poetas, de ontem, hoje e se ainda os houver amanhã são na verdade os grandes responsáves por esta cegueira generalizada. Os poetas, as suas palavras bonitas e sofridas passam desde sempre acima de qualquer suspeita, mas se os políticos nos manipulam negando o caos social e económico, os trovadores do amor não devem ser despenalizados. Se antes do dinheiro acredito no amor, seja amoroso ou fraterno, não creio que uma sociedade ignorando as verdades do amor esteja capaz de vencer as provações iminentes à condição humana. Se apenas nos apresentam o amor e o reverso, desamor, é claro que mais depressa baseamos a nossa existência em valores materiais, esquecendo que no fim das contas não é o dinheiro que levamos para a cova, mas as sensações, pessoais e intramissiveis e tantas vezes difíceis de descrever (até mesmo pelos habilidosos das palavras).

 

A esses poetas medievais ou contemporâneos, por favor, parem de enganar as pessoas. O amor é, por ventura a coisa menos romantica do mundo, e requer uma das características atribuidas a pessoas aborrecidas, bom senso. Depois da parolice dos primeiros tempos; cada nuvem é um coração palpitante, cada estrela parece nascida numa caixa de bombons e cada música de uma nova cantora pop nos enternece, chegam as primeiras provações e uma delas é reptílica porque não é evidente mas causa danos, às vezes irreparáveis. Por exemplo, quantas vezes ouvimos casais discutir por causa de um 'taparuere' ou outra trivialidade? Os casais tendencialmente discutem por coisas estupidas e quem está por fora não compreende. O problema é que eles também não entendem o que realmente se está a passar. A surdez ou intolerancia à voz do/ nosso/a amado/a é um facto comprovado cientificamente ou seja, os casais perderam a capacidade de se ouvir, literalmente. É natural que ao fim de um tempo, nos recordemos daquela avó surda a quem tinhamos de repetir as coisas duas e três vezes e que o grunhido 'hun?' já nos aborreça, mas há que lembrar que fazemos exactamente o mesmo e que do outro lado há igualmente uma pessoa cheia de fastio. É claro, há dias que se parte a loiça toda e por isso, para o estrago ser menor, discutimos sobre 'taparueres', mas se existe realmente amor no estado apurado, o bom senso é o melhor aleado, especialmente para situações de SOS. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:13

(E)vidências que me afagam o ego

por Cláudia Matos Silva, em 20.09.14

 

Cartomâncias e outras artes do oculto, fascinam-me. Disponho-me a brincar 'ao faz de conta' se não me levarem mais de 10 euros. Nem por acaso, vi 'Magia ao Luar' do Woody Allen e cruzei-me com uma dessas encantadoras meninas, cheia de tiques capta a nossa atenção. Para não desmerecer o trabalho desta vidente, não direi o seu nome, acho que é uma profissão tão válida como outra. E se às vezes precisamos mesmo que nos afaguem o ego, se pagarmos para um desconhecido o fazer, a fórmula não tem como falhar. Às vezes armados em corajosos queremos que nos digam a verdade, somente a verdade, e minutos mais tarde estamos desconsolados, questionando-nos 'será mesmo assim?', porque ao fim das contas não é a verdade que queremos ouvir, essa sabemos de cor através do nosso subconsciente. Esta graciosa cartomante, é também uma bela actriz, diz-se constantemente em contacto com energias, forças, talvez guias (digo eu) que bichanam a mensagem ao ouvido para que a transmita ao 'papalrro' que dali a alguns minutos vai largar 10 euros, apenas porque sim. O que disse esta bela mulher, de modos delicados e unhas cuidadas, nada que eu já não soubesse, porque a vida de todos nós é feita exactamente das mesmas inquietações ou inseguranças. E quando se jogo pelo seguro, o tiro é certeiro. Mas confesso que depois de perceber que havia deixado 10 euros na rapariga dos maneirismos, debati-me com o problema de sempre, então e agora o que raio faço com essa informação? Melhor seria comer um pão com chouriço e caldo verde porque se procuro consolo, nada bate o calor de uma boa refeição no bucho, para que num ápice se faça luz e tudo o resto faça algum sentido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:31

O maravilhoso mundo da pensão amor

por Cláudia Matos Silva, em 18.09.14


Num ambiente burlesco como a pensão amor na Rua cor-de-rosa, é inevitável a tentação de querer observar, tocar, sentir, ouvir e beber de todo o espírito da que foi definitivamente uma pensão onde se fez 'o amor'. Tudo junto, pessoas, mobílias, estética e demais pormenores, lembra a feira da ladra numa versão requintada e sem expositores no chão. Em parte, a pensão amor parece uma rebaldaria, um espaço sem nexo, mas no fim das contas a coerencia do conceito envolve-nos nas voltas de um espaço, dividido entre salinhas e saletas, para sem pudor aceitarmos que o sexo não tem de ser coisa porca ou vulgar. A pensão amor vive da espiritualidade, e não de almas penadas perdidas entre os corredores e que tantas histórias teriam para nos contar, mas do humor de quem mima o espaço. Sente-se a alma do que foi e que não seria, certamente bonito de ver; mas que tal aceitar as coisas como elas são? Não se escavacou o edifício ou do lixo se fez luxo, pelo contrário do velho (passado) mantem-se o velho (espirito) mesmo que renovada, a pensão amor será, enquanto houver empresários apaixonados, um espaço que marca um pedaço da história da boémia lisboeta. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:08

O meu encontro com 'Orlando'

por Cláudia Matos Silva, em 16.09.14


A idade prova-me que, a juvialidade é isso mesmo, frescura e encantamento pela novidade. E sei hoje, que a verdadeira atenção ao detalhe, a minúcia e sensibilidade adquirem-se com a experiências que as nossas vivências nos infligem. Sim, muitas são experiências forçadas, não queremos e depois de vividas não gostamos, para mais tarde a maturidade vir a nós, simples, pés descalços e sem nada a perder, revelar-nos a beleza nas coisas. 


Orlando foi das piores experiências cinematográficas da minha vida. Sequer me passava pela ideia de existir uma tal de Virginia Woolf e estar no cinema, equivalia a um plano (algo original para a época) estoirando tempo (para não falar no dinheiro do bilhete) e assim justificar uma vinda a Lisboa, com o passe no bolso de trás das jeans e uns trocos no bolso. O Nimas exibia um tal de Orlando, e um pequeno grupo de homens e mulheres com conhecimento de vida e mundo que ainda agora não possuo, entrava na sala com reverência. Orlando seria pessoa importante, julguei, mas a mim lembraria-me um dos filmes mais entediantes de sempre, motivo que levou-me a ligar os headphones para desligar os sentidos da grande tela. Oiço 'xiuuuuuuuuuuuuuu' e percebo que a minha música interferia, engoli em seco a terrível vergonha de não compreender o fervor com que os espectadores se vergavam perante Orlando.


Eu tinha 14 anos, ainda mal refeita de uma cirurgia embaraçosa ao coccix (como raio se escreve isto??) que entortara numa saída aparatosa da banheira e pés molhados em piso cerâmico, o meu mundinho eram miudezas. Um coccix cirurgicamente corrigido, uma escola odiosa, a idiferença dos colegas, amigas que nunca o foram realmente e a descoberta do frenezim punk dos Sex Pistols. Orlando, ora mulher, ora homem não encaixou de maneira alguma no meu cubiculo de portas e janelas encerradas ao melhor que mundo tinha para oferecer. 


Dizem, há obras que nos escolhem, e um destes dias quis muito rever Orlando, dar-lhe a oportunidade que nunca me mereceu. Em casa, na minha intimidade, apaixonei-me pela obra de Woolf, a única que na realidade conheço. Digo, não gosto de escrita velha, cheirando a mofo e cujas páginas se enchem de pó, pela falta de contemporaneidade. Mas há livros velhos, mas tão jovens, frescos e devoro-os com o encantamento de uma adolescente que na devida altura não poderia nunca amá-los. 


Num dos mais bonitos domingos que presenciei em Lisboa, passei pelo alfarrabista junto à brasileira e julguei-me num outro planeta. Perdi noção das horas, e no meio de livros antigos, tudo me parecia rejubilante, lembrando os olhos dos meninos quando descobrem a novidade. Salas e mais salas, cobertas de livros do chão ao tecto. A braços trazia as ilustrações de 'Riso Amarelo', ou 'Crime a sangue frio' e quando me preparo para sair, sinto-me observada. É Orlando, no fundo de uma prateleira, local onde não tencionava buscar qualquer 'tesouro', pedia a minha atenção porque sabia que há muito o procurava. Corri e agarrei-o com tanta força, como um segredo, antes que alguém o visse, Orlando já era meu.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:15

As boas vindas ao Outono antecipado

por Cláudia Matos Silva, em 15.09.14

Muito possivelmente este é um dos últimos momentos do ano que revelo os dedos dos pés. A melancolia já começou e o tempo não engana, é da galocha. Lembro o meu passeio este fim de semana pela Avenida até ao cinema S. Jorge para ver um filme sobre adictos em velhas VHS. Pelo caminho, entre piso molhado e o receio do espalhanço total, houve tempo para vos mostrar as muito confortáveis sandalocas da Pull e até perder-me com uma outonal fachada lisboeta, lembrando as saudosas barbearias. Enquanto tiver vontade de passear sozinha, nem tudo está perdido para mim. 



Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:10

A pelúcia de Peter Broderick

por Cláudia Matos Silva, em 09.09.14

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 22:41

Porque a mulher invisível também tem sentimentos

por Cláudia Matos Silva, em 09.09.14

 

Há nomes da cena artista nacional que reúnem concensos. A imprensa dita especializada não se cansa de os trazer em braços. Curiosamente, e nunca entendi, essas mesmas figuras, não têm da minha parte qualquer simpatia. E hoje, falando de uma delas e assumindo algum desinteresse nos seus feitos mediáticos ( e naturalmente consensuais ), saiu-me 'sem filtro' o seguinte comentário "não gosto, não sei porquê...mas talvez seja inveja". E riram-se como tivesse dito uma das piadas habituais, aquela manifestação revelou a mais pura verdade. Ser 'mulher invisível', passar entre as pingas da chuva pode fazer de mim uma perfeita ilusionista. Mas eu não aprecio a magia das mulheres serradas a meio e afins, então consomem-me sentimentos terrenos e mesquinhos. É claro que tenho inveja, só pode ser, mas a minha inveja, auscultei-a cuidadosamente, e é absolutamente inócua. Quase tão inócua como o meu propósito nisto tudo a que chamam...vida.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:10

O que sinto quando se promove a incompetência?

por Cláudia Matos Silva, em 09.09.14

 

Não é revolta da que se gera em torno da mesa do café sobre 'tachos' ou 'cunhas' (até, sem vergonho assumo) gostava de ter uma 'mão' que me desse um empurrão, a força das ligações famíliares mais ou menos directa (e, um apelido conta, sim senhor), ou se tem um palminho de cara (quem não gostaria, bolas) ou o mais irritante dos argumentos, surge geralmente em fim de conversa e com os intervenientes bem regados a tinto,  'subir na horizontal' (porque na verdade cada um é que sabe o que está disposto para atingir os seus fins e deve ser respeitado por tal).

 

Posto isto, e se nenhum destes argumentos me interessante para a questão da incompetência, em que fico? Desconfio que não fico, mas há um ego machucado, sinto-me (por falta de reconhecimento) um papel arrancado à bruta de um caderno quandriculado (detesto cardernos aos quadrados, lembra-me matemática) transformado numa bola e atirado a um cesto no lixo, em jeito de truque artolas de basquetebol, e cada vez que vai ao cesto, afunda, sempre. E eu afundo, também, a auto estigma a derreter-se como manteiga e no fundo de uma série de camadas que me anulam como 'ser pensante' e de auto-estima em fanicos sinto-me profundamente ofendida. Ofende-me a hora do café, do cigarro, do telemóvel, do facebook e até do wc. Ofende-me porque, os tais, são encontrados entre corredores a roçar 'os reais rabos pelas paredes'. E esses mesmos indivíduos, ofendem-me quando faltam constantemente alegando, a piscina da criança, a reunião na escola, ou a festa de aniversário. Ofende-me, argumentarem uma vida familiar complicada, leva claro a dores de cabeça crónicas e muitas injeções sem resultado à vista, a mãe hospitalizada, a tia esquizofrénica, os apuros do conjugue e a reunião de condomínio.  

 

E são estas as pessoas acarinhadas pelas entidades patronais. É a elas que se juntam os chefes, tentando pintar de negro histórias que na sua verdadeira essência não passam de farsas. O povo é fadista, e mesmo que não cante o fado da desgraçadinha, é desse sentimento de pobreza que vive para se alimentar no falnaço alheio. E afaga as mágos do que não cumpre as obrigações laborais, relegando-as para segundo plano e ouve-se 'o que interessa é que esteja tudo bem'. É claro que as coisas não podem estar melhores, por 7 horas de trabalho pelo menos 4 horas passam-nas num vão de escada e um manto (pintado à pressão) lembrando um xaile fadista, e a núvem de agoiro que as persegue para melhor encarnar a personagem. Direi que neste fado de vão de escada que são a maior parte das empresas, fala-se muito mal dos que cumprem e se mantém distantes. Porque o 'portuguezinho' (não o pequeno em estatura) se não sabe da vida alheia, inventa. E enquanto, o que só falta em casos de grande importância, e que não se nega a horas extras (se tiver de ser), é olhado com uma certa revolta pelos seus semelhantes, dizem, 'já viste, a trabalhar dessa maneira dá mau exemplo, se ela faz, quer dizer que nós também temos de fazer. Isso é habituar mal o patrão". 

 

Não se preocupem pelo trabalho que vocês não fazem, outros o farão por brio profissional. O chefe jamais irá reconhecer o mérito desse 'pobre diabo', bem pelo contrário, irá sacrificá-lo quando for necessário (ou então porque sim), afinal é uma pessoa que tem-se revelado sem problemas, ainda por cima não é casada e sem filhos, também não irá ruir o mundo se não lhe pagar o ordenado a tempo e horas. 'Ela não precisa do dinheiro com urgência'. É por isso que vamos pagando, às pinguinhas, ao longo do mês, por ordem de quem tem realmente uma vida mal fadada.

 

E tenham como certo uma coisa. No dia que surgir alguém, num cargo superior, e ponha as coisas na ordem, para ele haverá apenas um título 'ganda filho da p*' 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:11

Um momento nostálgico por dia

por Cláudia Matos Silva, em 06.09.14


O contexto é bem simples, em Maio pela altura do meu aniversário, M. ofereceu-me uma pequena mala com esta imagem. A doce Anita, falando com os animais, as trancinhas com laçarores azuis e a cuequinha à mostra. Havia algo de travesso e mimoso nesta ilustração de Marcel Marlier, criador de Anita, em França o verdadeiro nome da que para mim sempre foi a menina mais linda do mundo, Martine. Por saber dessa paixão, um dia terei sido batizada por P. de Claudine, mas não pegou e hoje chamam-me de tudo menos o meu nome próprio. 


Marinei a ideia de ter um blog dedicado a esta menina, Martine, durante meses. Dígamos que o blog já devidamente criado esteve em pousio desde Maio, para agora lhe dar finalmente a vida que merece. Esta Anita é para gente crescida, a pequenita cresceu, e enquanto a saudade aperta e relembramos a imagens de extrema beleza, criações do 'vô' Marcel, estamos cientes que o tempo não volta atrás e que viver de memórias também não é nada bom para a saúde. É por isso que existe 'Quem Tramou Anita?' e os nossos minutos diários de saudosismo, e depois continuarmos em frente, olhos postos no futuro, porque se diz, e bem na gíria futebolistica, 'bola para a frente que atrás vem gente. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:36

Pág. 1/2



Sem Título22.png

 




Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D




page visitor counter