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Parvo, estúpido, lunático, cretino

por Cláudia Matos Silva, em 08.10.16

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 (Jerry Lewis & Dean Everett)

 

'...Um és tão parvo, atirado com dureza em principio visa ofende, mas, não sejas parvo, pode ser uma forma simpática de não deixar um companheiro de almoço pagar a conta. Parvo, tem essa flexibilidade, e estúpido também, até certo ponto. Já cretino e lunático são mais limitados. Um cretino é mesmo um cretino e um lunático um lunático, ainda que não tenham cabeça suficiente para entender isso.'

(Expresso)

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publicado às 18:32

Amá-la, Amália

por Cláudia Matos Silva, em 06.10.16

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Porque hoje se assinalam 17 anos da partida de Amália...

 

O cenários, umas águas furtadas à Travessa da Hera em Lisboa, e os triunfantes anos 80 com um 'boom' musical. Os punks, instalados nos passeios da cidade, gostavam de me puxar as tranças mas nas águas furtadas alguém puxava pelo meu gosto musical. Fernanda, amiga de infância, caracóis negros, óculos fundo de garrafa e gengivas salientes. Eu gostava tanto dela, dos brinquedos dela, das brincadeiras dela e da 'grafonola' da avó dela. Um rádio antigo, madeira clara, e a parte dianteira coberta a tecido cuja cor variava entre o creme e o verde pistácio. A minha Fernanda, a das águas furtadas à Travessa da Hera em Lisboa, era o um bálsamo, o verdadeiro recreio, uma esfera de felicidade. Ela escolhia as músicas, o que mais tarde viria eu a fazer, e se ela tinha bom gosto. Brian Ferry, Prince, Earth & Fire ou Amália. A senhora do Fado seria um 'guilty pleasure', com seis anos não tínhamos sensibilidade para entender a canção de Portugal, por isso troçámos até ficarmos esgotadas de tanto rir. Dançámos aos caracolitos, os caracóis dos espanholitos, a nossa canção favorita de Amália. As outras canções de Amália recusámos ouvir, escutando em 'repeat' uma letra que à época, como hoje, não faz qualquer sentido. Uma parvoíce, um jogo de palavras cativante aos nossos ouvidos duros como pedra. A Fernanda abria a boca e deixava dentes e gengiva num louco 'fernicó', só comparável aos seus próprios caracóis que saltitavam ao som da cançoneta.

 

A ironia de tudo isto, muitos anos mais tarde, Amália seria minha patroa. Sou-lhe grata por tudo, a Amália e à Fernanda, ambas à sua maneira tornaram a minha vida especial. E não tenho 'Medo' de dizer abertamente, pelas boas memórias de uma infância nem sempre plena, escutar Amália com a Fernanda traz à minha memória um deleite de coisas boas.

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publicado às 20:48

"Picha torta" entre as mulheres

por Cláudia Matos Silva, em 30.09.16

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O bate na avó, caixa d'óculos, baleia fora d'água ou bate-m'uma, são apenas algumas alcunhas de mau gosto, alcançando o título de intemporalidade, porque em qualquer grupo existem personagens em que assentam tais caracteristicas. No grupo que a contragosto me ia acolhendo, conforme humores, estado do tempo e outros critérios altamente parciais, existia também um outro renegado, o picha torta.  Há tantas memórias do menino mais bonito da rua, quem sabe do bairro, traído em tão tenra idade por uma graça que o levaria, à desgraça. O mito sobrepôs-se a um simples homem. Afinal, como se chama o picha torta?
 
As circunstâncias deste miúdo não lhe seriam favoráveis e nem mesmo o seu palmo de cara o faria vingar, especialmente na presença de Xavier, o líder da matilha, a quem todos os miúdos prestavam obediência cega e por quem inevitavelmente as raparigas se apaixonavam. Não havia volta a dar, as coisas aconteciam assim e ponto final. 
 
Picha torta, perdido de amores por Ana, morena trigueira e buço considerável, ansioso pela atenção da sua querida,  na verdade enleada na teia de Xavier, terá  apelado ao mais trivial exibicionismo. Subiu numa mesa de madeira nas traseiras dos prédios e inesperadadamente baixou as calças para logo as subir. Orgulhoso pelo atrevimento, realmente captou a atenção de Ana que gritou "ele tem a picha torta". Ninguém confirmou ter visto a picha, do picha torta, por isso é desde essa altura no meu universo de pré adolescente, um mito-suburbano. Mas o picha torta tem nome, não tem?
 
Menino especial, havia uma aura de secretismo em torno da sua família, a lembrar pactos dos clãs italianos. Mesmo assim, tentava na medida do possível ser um rapaz entre rapazes, mas nem sempre conseguia. Não estudava nas mesmas escolas públicas que os miúdos do bairro e certamente não vestia as mesmas roupas ordinárias. Entre mulheres, nunca lhe conhecemos um homem no lar, a mãe e as irmãs eram o núcleo duro e não havia qualquer melindre nesse facto, mesmo retratando o conservadorismo do final dos anos 80 e inicio dos anos 90. Bonito, estupidamente bonito, nunca foi visto como tal, nem mesmo pelas raparigas. Brincavamos na rua, e o picha torta não se atrapalhava, se os rapazes lhe viravam costas, as meninas haviam de o acolher.  Ele terá conhecido o melhor e o pior de todos nós. Se tantas vezes nos limpou as lágrimas em amores não correspondidos, outras vezes comportava-se como o típico rapaz e sob a influência de Xavier, tornava-se um militante empenhado daquela matilha de machistas em potência. 
 
O Xavier, Nuno, vivia no meu prédio, terceiro piso e creio, aquela casa ficará para sempre marcada com a energia daquela família, também ela incomum, onde viviam apenas homens. Confiante, carregado de preconceitos até à raiz dos cabelos, arrogante, expressava alguma violência num discurso por vezes recheado de pura basófia. Ouvia metal pesado, usava calças de ganga justas e falava de estranhos rituais no meio do mato, violentação de pessoas e animais. Quem sabe histórias para impressionar. Um dia escreveu-me no canto de um caderno da escola, dobrando cuidadosamente a mensagem como se fossem palavras de amor. Fiquei encantada com a sua linda e repenicada caligrafia, só depois me detive no verdadeiro sentido do que havia escrito "hás-de morrer careca". O Nuno era mau, assustava as pessoas com estes e outros comentários mas ao fim das contas, todas as miúdas se apaixonavam por ele e eu não fui excepção.  Recordo a sua profetização junto à porta da minha casa "quando cresceres vais ser um borracho". 
 
Estaria longe de imaginar que Xavier, inversamente a mim, iria transformar-se num trambolho, gordíssimo, a rebentar pelas costuras. Casado com Esmeralda, apresenta "shows" noveleiros para vizinhos em acesas discussões e o recurso ao pugilato. São lindos os filhos, instalam-se largamente no carro familar, e ele aproveita o fim de semana para deixar o fato e a gravata de misero comercial e usa bermudas caqui e sapatos de vela, sem meias.  Quem sabe a vida tenha ensaboado a psique de Xavier com uma generosa dose de humildade. Ele já não é o gajo mais "fixe" da rua, nem sequer faz girar cabeças. Será que Esmeralda ainda não o trocou pelo pintarolas do snackbar?
 
Aquele puto, o picha torta, corria tantas vezes atrás do seu líder é hoje o homem que eu prevera, sem tirar nem pôr. O mesmo rosto imaculado, olhos safira, cabelo acobreado, corpo esguio, desloca-se elegante e fala tranquila. No mesmo circulo femínino, entre mulheres e um ambiente de doce familiariedade surge um menino, sorriu-lhe muito, talvez se tivesse lembrado de si próprio. São os únicos homens do clã, a criança, talvez sobrinho, salta para os braços do picha torta e eu aprecio o episódio, apanhada pela surpresa de mesmo ao longe reconhecê-lo. Não consigo desviar os olhos,  mas o meu estúpido sorriso camufla uma inquietação, a questão que paira na minha cabeça. O nome, picha torta, porque raio não sou capaz de me lembrar do teu nome!?

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publicado às 00:36

Editores de imagem on line: Pixrl vs Fotojet

por Cláudia Matos Silva, em 30.09.16

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 Fotojet é um editor de imagem on line. Descobri-o recentemente quando procurava uma solução habilidosa para construir um cartaz apelativo. Até ao momento o Pixrl havia sido o meu editor on line por excelência. Depois de testar as mais valias de um e outro, dependendo o objectivo faço a minha opção. É um facto que o Fotojet está claramente a ganhar pontos na abordagem a templates para as redes sociais apresentando extruturas diversas para um resultado quase profissional. O Pixrl tem filtros para todos os gostos e feitios, efeitos de luz e imagem, molduras e 'lettering' criativos mas o fotojet também tem isso tudo. A escolha é cada vez mais renhida. Por agora não vem mal ao mundo usar as duas e usufruir do que cada uma tem de melhor.

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publicado às 00:04

Encontrei um rei

por Cláudia Matos Silva, em 08.09.16

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Desde a série 'O Sexo e a Cidade' e o episódio em que Burger revela o hábito de guardar todas as cartas soltas que vai encontrado espalhadas em NY, reconheci uma espécie de colecionadores nunca antes vista. O personagem, aos primeiros episódios gera simpatias, em pouco tempo percebemos estar diante de um homem que não joga com o baralho todo. Poderá esse facto justificar uma busca inusitada pelas cartas deixadas em bancos de jardim, passeios ou canteiros? A moda tomou conta das redes sociais mesmo que num núcleo restrito, nunca acreditei na veracidade dos posts. Ao que parece há gente a espalhar baralhos ao vento, considerando o número de pessoas que casualmente as encontram. Isto mudou no dia que encontrei na praia fluvial de Serpins, algures no piso revolto do parque de estacionamento, a minha primeira ( e até ao momento única) carta. Parecia estar mesmo à minha espera, já muito pisada e moída pelos grãos de areia, um rei. Podia ser outra carta qualquer mas o que me estimulou neste encontro casual foi a importância da carta, um rei, e o impacto que esse achado teria na minha predisposição para acreditar. Dizem-me que é apenas uma carta perdida junto a um parque de campismo mas eu acredito que o rei estava à espera de mim, para lhe tirar a poeira, estimar e guardar junto de outros amuletos da sorte. Junto-o ao Expedito, o rei encontrou um trono improvisado na minha secretária. Ombreando, lado a lado o santo e o rei olham por mim, sem que nenhum queira sobrepôr influências. 

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publicado às 22:05

A amizade não é nenhum truque de ilusionismo

por Cláudia Matos Silva, em 03.09.16

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 E., amiga de longa data, o mais próximo que me ficou na categoria 'amigos de infância'. Já conheci E. mulher feita mas como levei muitos anos a crescer, julgo que o preço a pagar pela falta de maturidade terá resultado no desaparecimento de amigos e conhecidos, num passado dolorosamente presente. Como se o meu mau feitio tivesse o poder de subtrair seres humanos, e uma diferença fundamental, nos truques de magia a pessoa desaparecida reaparece no fim para um encerramento triunfal. Das minhas manobras apenas E. resistiu, e embora a própria tenha um feitio desafiante, noto que guarda a nossa amizade com a mesma dedicação e retidão como respira. Falamos muito sobre desenvolvimento pessoal e atribuimos uma a outra tantas qualidades que às vezes não reconhecemos quando nos vemos ao espelho. O reflexo nem sempre é lisonjeiro, buscamos a perfeição, detestamos o erro mas sabemos, é à custa de algumas falhas que temos construido a solidez  numa amizade muitas vezes à distância.

 

Quero-te na minha vida E. Por favor não desapareças, como por artes mágicas, porque no fim do acto não tenho o poder de te fazer regressar a palco. Que triste seria um número assim. 

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publicado às 00:26

Tem calma contigo, pá!

por Cláudia Matos Silva, em 02.09.16

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Bem sei, testo os nervos do meu homem, diariamente. Ele resiste e com uma nota exemplar vai passando cada uma das provações. Nunca sabe ao certo que mulher dorme com ele na cama, ou quem vai encontrar quando chega a casa e mesmo assim acolhe-me sorridente e de lábios cálidos, tranquiliza-me. Às vezes debate-se, sozinho, o que mais pode fazer para me ajudar?! A maior parte das vezes sente que falha redondamente, eu choro sem que encontre explicação plausível para tal pranto, mas é quando ele me faz rir e rebolar à gargalhar ou mesmo sorver o sal das próprias lágrimas, muco e ranho, que sei ter descoberto a tampa para o meu tacho. Depois dos momentos de doçura noto o horizonte alarga-se, há tampas e os tachos acumulados, gordurentos, esperando que arregasse as mangas e lhes dê o devido andamento. Oiço um estrondo bruto, replica-se durante alguns segundos, corro sobressaltada e vejo-o a segurar a máquina de lavar roupa que ganhando vida própria dá dois pulinhos no ar. 'Tem calma contigo, pá' grita-lhe segurando-a pelas extremidades como quem detém um toiro enfurecido. Não consigo conter a gargalhada histéria, descontrolada. Como se um mal não bastasse, tem duas situações em mãos, máquina vs mulher, ambas à beira de um ataque de nervos. 'Tem calma contigo, pá', repete. Não é fácil a vida deste homem, não é, não.

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publicado às 14:54

Lá vai ela de burkini

por Cláudia Matos Silva, em 27.08.16

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Factor 50, nunca menos. Besuntava a pele branca que nem cal e ainda usava a sombra do chapéu. A imagem de um escaldão remontava ao período infantil onde nem o creme nívea, o da embalagem azul, me salvava de profundas queimaduras, bolhas e até feridas. Depois dessa fase escaldante, remontando a mil novecentos e oitenta e tal, que não vou à praia, ou pelo menos tantas vezes quanto o típico português.  Se lá meti os calcantes, grafitarei um cálculo por alto, uma vez de três em três anos nos últimos 20 anos. Estas visitas esporádicas deveram-se a alguns sacrifícios de amor, porque só no amor nos propomos a fazer coisas de que gostamos menos. Aceitar o benfica foi o princípio, a praia viria depois, temo os próximos capítulos nesta bonita história de amor.

 

O amor me levava à praia, o amor me cobriria na praia, a pele, de creme. Não faço a apologia de colocar protector sem uma mão amiga, motivo que me valeu num destes dias um valente escaldão nas nádegas. O que aprendi desta experiência solitária e malfadada? Espalhar creme é uma arte e os anos do Camarinha nas praias algarvias não foram em vão, serviram-lhe para desenvolver a arte, a arte de cobrir, a pele, com creme.

 

As nádegas doridas, ainda ofendidas por terem sido esquecidas, lembram-me dores há muito não sentidas. Despeço-me, zangada, do factor 50 e opto por um trapo que me cobre do pescoço até abaixo dos joelhos. Nas redondezas, e se o calor aperta, sou a única pessoa vestida. Que se dane, protego-me ainda debaixo do chapéu e oiço piadas à minha indumentária 'lá vai ela de burkini'. Acho graça, sorrio, conto a história e até mostro as nádegas que não me deixam mentir.  

 

Fico à beira da água molhando até aos joelhos. O amor pergunta se a praia me sabe bem, e de olhos semi-serrados pelo sol que os encadeia, desabafo 'a praia está ótima, é pena este sol chatinho'. Ele sabe que se há coisa que não me entra na cabeça é o chapéu de palha que trago comigo. O modelo do burkini está muito bem pensado, aliás, as senhoras que rogam a Alá não deixaram nada ao acaso e até a cabeça está devidamente coberta. O sol chatinho não as irá atormentar e as dores de cabeça, típicas de fim de praia, ficam para os que estiveram sempre a girar a cabeça ao vê-las passar, e por assim dizer, a rasgar-lhes no burkini. 

 

 

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publicado às 00:15

Os putos da rua

por Cláudia Matos Silva, em 27.06.16

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Cresci nos subúrbios dos anos 80 entre bonitos eucaliptais que progressivamente se viam engolidos por uma selva de betão. Havia lama para fazer bolos de areia, águas malcheirosas que se acumulavam das chuvas, terra húmida para brincar ao 'espeta', uma mão cheia de berlindes e os malfadados abafadores. Os putos da rua, aos meus 8 anos de idade, foram os heróis mais imediatos que conheci. Usavam jeans escuras e apertadas e durante o dia inteiro só tinham olhos para a miúda mais maneirinha das suas vidas, a bicicleta. As outras, onde eu me incluía, ficavam à parte a vê-los passar.

 

O meu manto de invisibilidade permitia-me passar por entre as gotas da chuva e observar atentamente, sem ser denunciada, os episódios dos putos da rua. A 'patinho feio', a quem não se presta atenção, ia escapando como podia às maldades dos putos. Infelizmente deu nas vistas em pouco tempo e não pelos melhores motivos, nestas idades nunca é pelos melhores motivos. As alcunhas eram terríveis e o ego escangalhado sorvia em silêncio lágrimas de humilhação. Os pais raramente metiam o bedelho em assunto de miúdos, afinal tínhamos de aprender a defender-nos desde tenra idade. Os pequenos dramas vividos na rua tomariam a dimensão de uma vida, como se o mundo inteiro bradasse contra nós, mas o que viria depois, a vida adulta iria desenhar-se com linhas sinuosas e tempestades difíceis de travar.

 

As minhas faces permanentemente em brasa revelavam o desconforto geral da infância e início de adolescência, por mais invisível que tentasse ser havia algo que chamava sobre mim as atenções. Não sabia como lidar, como agradar, como fazer entender que até me podia rir de mim mesma mas no fundo estava em sofrimento e só queria que me deixassem seguir com a minha triste existência de criança encerrado no meio de uns óculos e de uma franja.

 

Num desses dias, talvez fosse inverno, cheirava a terra molhada, brincámos nos prédios em obras e de qualquer cana fizemos um brinquedo. Os putos da rua iam sempre mais longe, mais velhos tinham manha ou artimanha, não é de estranhar vê-los a congeminar entre os eucaliptos. Encontraram cal numa obra e os próprios se lembraram de fazer uma obra de arte, à época, megalómana. Chamam-me, 'ó não', penso. Levaram-me junto de uma imponente escultura branca que jaz no chão de terra batida, geometricamente instalada, uma instalação. Perguntam-me o que parece. 'Ó diabo', tenho perto de 9 anos, acho que já vi aquilo em algum lugar; uma parte dianteira proeminente e duas rodas traseiras monumentais - será o carro do Ayrton Sena? Não os contei, mas os risos foram tantos e não os consegui guardar todos na memória.

 

Bolas, eu até sabia que se tratava de um falo, mas queria agradar, por aquela altura a fórmula 1 estava na moda e os putos da rua tinham o hábito de colar os posters da página central da revista do Correio da Manhã nas paredes do quarto. Podiam ter a Samantha Fox ou o Nelson Piquet entre a colecção de latas de refrigerante.

 

A história repete-se ou talvez se renove. Anos 90, na sala de aula. Adolescente, algumas borbulhas, hormonas aos saltos. Uma paixão assolapada por um colega de turma, não quero passar despercebida, ele fala comigo como se eu fosse 'one of the guys', não estou nada contente, ele pelos vistos também não. Passa as aulas inteiras a desenhar, agarrado a um caderno de folhas quadriculadas e capa preta. Partilha mais uma das suas teorias eu faço de conta que oiço. Hoje quer apenas que lhe aprecie os desenhos, passa-me o caderno para as mãos, pergunta o que me parece tal rabisco. Ó diabo, já antes fui submetida a tal teste e chumbei vergonhosamente. Mas desta vez estou preparada, vou buscar um sorriso que copiei das moças que continuam a vir escarrapachadas nas centrais da revista de Domingo do Correio da Manhã e digo-lhe 'então, é aquilo'. Pega no caderno rapidamente e entre lábios deixa escorregar o veredicto 'é o edifício das Amoreiras' e se havia a esperança de que o meu atrevimento me pudesse levar à minha primeira conquista, desvaneceu-se à última punhalada 'não se vê logo?!'.

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publicado às 18:28

A bandeira verde

por Cláudia Matos Silva, em 16.06.16

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-Hoje está bandeira verde.

 

- Isso é o quê?

 

- Não estás habituada a vir à praia, pois não?

 

A praia nunca foi ' a minha praia', e se me intrigava especialmente no mês de Agosto, em que a palidez da minha pele denunciava a estranha forma de viver o verão, debaixo de uma sombra encontrada ao acaso. Mas a infância teria sido pródiga em escaldões na que recordo como 'a praia do cagalhão', Cruz Quebrada.

 

Em plenos anos 80, vindos da província qualquer pedaço de areia faria o nosso céu, pensarão, mas não era bem assim. A minha mãe detestava a Cruz Quebrada, por ela iríamos para Carcavelos, o meu pai assumido inimigo de multidões escolheu naturalmente uma das praias menos turísticas que tínhamos perto de casa. Na hora de decidir os destinos do país, ele envergando ao peito um pin com o símbolo do martelo e da foice, ela orgulhosa pelo seu voto no quadradinho dos cor de laranja, deixavam-me à solta com apenas 6 anos, recusando ficar debaixo do chapéu nas horas de maior calor. Mais tarde sofreria as consequências na pele, literalmente . A minha mãe explicou-me anos depois que terá cumprido a sua parte, ter uma sombra e um creme protector, a minha teimosia seria a maior de todas as lições e um trauma para a vida inteira.

 

Atravessamos o rio Tejo assentamos arraiais na margem sul, algures num calhau na Costa de Caparica se escreve a azul CDS, assim ficam conhecidas as praias junto às estações do autocarro. Por essa altura o meu pai já guardou o pin do PCP mas continua Comunista à sua maneira, a minha mãe anda com uma fotografia do Cavaco Silva na carteira e eu para além de odiar política, odeio praia. O nosso primeiro carro, um Cinca amarelo, tem sérios problemas de sobre-aquecimento, parecemos os três estarolas para onde um vai, os outros seguem atrás, detesto que assim seja. Passamos o verão na Cova do Vapor, a minha mãe diz em surdina 'é a praia do cagalhão', mas essa não era a da Cruz Quebrada? - pergunto baralhada. Basta de explicações, sou adolescente e a minha vida é efectivamente um cagalhão.

 

Muitos anos depois regresso à Cova do Vapor, a adolescência ficou finalmente enterrada em castelos de areia que se esfumaram nas brumas de uma memória de que guardo pouca saudade, e reparo hoje sou feliz. Sento-me a petiscar nas espreguiçadeira do novo restaurante Albatroz, vejo o pôr-do-sol, reflicto sobre os quase 40 anos e sinto-me muito contente por ter crescido. Não há mágoa pelos escaldões ou pelas sardas desmascaradas na pele, há carinho e estima. Sorrio sozinha pelas incontáveis vezes que ali terei escutado 'Use your illusion I and II' dos Guns n' Roses, e respiro de alívio porque a adolescência finalmente passou. O agora é muito melhor, mesmo que às vezes seja difícil assumir optimista. Mas a bandeira está verde, a água está boa para nadar, façamo-nos a ela sem medo. A vida também é isso, águas mais ou menos frias ou turbulentas em dias mais ou menos navegáveis.

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publicado às 17:51


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